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O que é preconceito? De Higienópolis a Danilo Gentili

Em um estado do sul do país, estávamos em três amigos. Um deles tinha um encontro marcado com uma garota da cidade. De posse do carro do outro amigo, fomos todos buscá-la. Depois de uma curta introduçao, resolvi quebrar o gelo:

“Poxa Fulano! Que óculos escuro horrível este aí!” – eu disse.
“É mesmo!” – respondeu o proprietário do veículo.
“É verdade, puta óculos de preto!” – ensurdeceu-nos a menina.

Não houve reação. Nenhum de nós estávamos preparados para algo assim, no século 21. Achava que isso não existisse no Brasil. Pessoalmente me senti impotente de começar qualquer argumentação. O que falar pra ela? O silêncio doía aos nossos ouvidos e nossas almas.
Não lembro quanto tempo se passou até que alguém pudesse reunir forças para abrir a boca e iniciar algum assunto banal. É como uma daquelas piores memórias, que tentam se esconder em nosso subsolo. Revejo a cena pensando em possíveis formas de “jogar tudo que penso na cara dela”. Somente muitos segundos depois, que pareceram uma infinidade, a conversa reiniciou, com qualquer outro comentário banal. Mesmo assim, minha cara-de-bunda era nítida e permaneceu por muito tempo, como a de meus outros dois amigos.

Esse é um exemplo claro e bárbaro. Não há como ficar mais explícito… talvez uma bisavó que não gostava de que seu bisavô contratasse “escurinhos” possa competir.

Refletindo esse caso, percebi que devo continuar me policiando para nunca mais utilizar expressões com as quais convivi na adolescência. É frequente ouvir, em São Paulo, que esse é um óculos “de baiano”. Trabalho com profissionais baianos que se vestem melhor que eu e de muita inteligência, como então usar um termo desses? Há mais casos horrorosos, como se referir a um trabalhador como nordestino, um porteiro como cearense. Meu colega mais inteligente da faculdade, o chouchou de la maitresse, assim como amigos da profissão, é de Fortaleza, e devo muito dos meus conhecimentos a eles.

Se você tenta intervir, poderá receber a justificativa número 1 do manual do ignorante moderno: “ah, mas são os próprios nordestinos/negros/judeus/pobres/(coloque sua minoria (maioria?) aqui) quem têm preconceito com eles mesmos”. De chorar.

Mesmo se existisse uma minoria em que todos seus participantes possuissem determinada característica: podemos, devemos, queremos explicitar uma diferença que tenha conotação negativa?

Há algumas situações mais confusas.

E se o menino fosse negro e se pintasse de branco, como Cirilo do Carrossel? Seria tão engraçadinho? E a questão da camiseta “100% negro”? O professor Kabengele Munanga discute bem essas questões específicas de negros e brancos no Brasil.

Se Shylock, de Mercador de Veneza, pode ser interpretado por Al Pacino de forma tão amigável, podemos descartar a hipótese de preconceito da peça?

E chamar um amigo de veado, para brincar com ele, é aceitável? Podemos associar a cor rosa a homossexualidade, pela piada? E se ele for um jogador de volei homossexual, pode? Devo pensar duas vezes antes de brincar da mesma forma que as gerações antigas faziam com os meninos: “ah! e você vai querer uma bonequinha de natal? só falta me falar que ganhou roupa rosa!”.

E o garoto alto e magrelo, vale ressaltar sua semelhança com uma girafa? Não seria, de alguma forma, próximo a oferecer banana ao macaco? Ou seria uma justificativa para Danilo Gentili chamar negros de macacos:

Se é engraçado piada de gay e gordo, por que não é a de preto? Porque foram escravos no passado hoje são café-com-leite no mundo do humor? É isso? Eu posso fazer a piada com gay só porque seus ancestrais nunca foram escravos? Pense bem, talvez o gay na infância também tenha sofrido abusos de alguém mais velho com o chicote.

O mesmo Danilo Gentili que faz piada do Holocausto, ultrapassando o limite do politicamente incorreto, depois do terrível incidente que da infeliz moradora de Higienópolis criadora do meme “gente diferenciada“:

Entendo os velhos de Higienópolis temerem o metrô. A última vez que chegaram perto de um vagão foram parar em Auschwitz.

Danilo Gentili não está sozinho. Rafinha Bastos que o diga.

Simples brincadeiras? Acho que todas essas expressões já tiveram sua hora, e na próxima geração serão (hão de ser!) consideradas absurdos, como hoje são algumas que nossos avós e bisavós usavam. E não é nosso objetivo sermos melhores do que antes?

Será o fim, inclusive, da piada de português?

Comentários

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6 comentários em “O que é preconceito? De Higienópolis a Danilo Gentili

  1. Paulo Silveira disse:

    voce tem razao. o reinaldo azevedo ate fala, que se o politicamente correto for fazer parte do humor, teremos aula de educação moral e cívica…. porem o humorista não pode virar um civil inimputável. tem de pensar um pouco antes de falar.

  2. Em muitas frases desse texto sinto a presença de algo que, de alguma forma, pode ser entendido como preconceito. Por exemplo: “Trabalho com profissionais baianos que se vestem melhor que eu e de muita inteligência” ou ” Meu colega mais inteligente da faculdade”. E se essas pessoas não fossem consideradas “inteligentes”? Seria menos notável o que se menciona no texto? Dizem que Hitler era muito inteligente.

    • Paulo Silveira disse:

      Tem razão Rodrigo. Dentro das minhas próprias negações, posso encontrar afirmações e angústias que luto contra. Meus preconceitos são trabalhados e extirpados dia a dia, pouco a pouco. Escrevo para enxergar melhor.

      Eu poderia ficar em uma situação ainda mais complicada: e se existisse um estado no país, onde todas as pessoas fossem, comprovadamente, menos inteligentes que de todos os outros estados. Ou mais: uma etnia. Deveríamos comentar isso? Estudar isso? Esse parece ser o caso dos autores do The Bell Curve. Os autores que fizeram o estudo são preconceituoso?

  3. Antonio Kantek disse:

    Caramba Paulo. Esse teu site arrebenta. Eu fiquei muito chocado com as afirmacoes do Gentili e do Rafinha Bastos.

    A minha familia sofreu muito na Europa da metade to seculo e para mim a piada do Sr. Gentili veio como uma bomba, muito parecida com a afirmacao da moca em relacao aos oculos.

    Existe uma fronteira entre o “desafiar o politicamente correto imposto pela sociedade” e o “de contar piadas escrotas” (desculpe-me pelo palavrao)…

  4. Paulo, (ou devo chamá-lo Saulo?)

    Homem é homem
    menino é menino
    político é político
    e baitola é baitola

    Seria o Falcão, humorista cantor, um execrável preconceituoso filósofo nordestino?

    Quem tem preocupações politicamente corretas teme por sua própria frágil imagem também. Ou por que se alarmaria?

    “Ora, só as pessoas superficiais não julgam pela aparência.” –Oscar Selvagem

    “Deixem em paz os humoristas, que pelo menos não estupram e também não matam” –Paulo(Saulo)Maluf

    “Ele é preto, mas tem cabeça de branco safado” –Luiza Prefentina, sobre um preto, já morto e enlutado.


    BolaSeteRosaChoque
    (negro, gordo e gay com orgulho)

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