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O misterioso caso do colchão do presidente da NASA

Retirada do dente do siso. Cancelamento do seu vôo em última hora. Exposições do Romero Britto. Um textão político no Facebook. Tudo isso é fichinha perto da compra de um novo colchão.

Noites mal dormidas e dores nas costas são os primeiros sinais. O colchão é o mesmo há seis anos, hora de procurar um novo. “Alô mãe, onde compra colchão?“. Em São Paulo, há uma região para tal. Na Avenida Ibirapuera, próximo ao shopping. Infelizmente fui convencido a ir até lá.

Há cerca de 6 ou 7 lojas uma ao lado da outra, com nomes estranhos cheios de anglicismos. A primeira loja possui um amplo estacionamento, onde Marcela e eu somos recebidos, com um enorme sorriso, por Clayton. Clayton é eloquente e sempre sorri. Preferimos um colchão mais firme, e somos conduzidos para experimentá-los. O ritual é repetido inúmeras vezes. Deita-se de lado, com a cabeça em travesseiros plastificados, podendo estender os pés, mesmo calçados, em cima do colchão. Há uma curta capa protetora sobre essa parte da cama para evitar sujá-la. Todos se parecem muito, temos sorte de ter o atencioso Clayton por perto para explicar as sutis diferenças:

Molas ensacadas, isoladas, perfumadas, envelopadas e galvanizadas“. Não sei a diferença. Ah! Algumas vezes ele citava bambu. A ideia de dormir em bambus não me era agradável.

Tem a espuma da NASA“. Wow! Da NASA! O que isso quer dizer? Devo dormir naqueles sonhos em que você se sente em queda livre, para imitar um ambiente sem gravidade? É uma espuma que afunda de forma meiga, desenvolvida pelos ‘cientistas americanos’. E basicamente todos têm o tal material.

Luxury-Space-Galaxy-Duvet-Cover

Este outro é o colchão da suíte presidencial do Hotel Fasano“. Deve ser bom. Não conheço o hotel, mas tem o nome de restaurante caro. Além disso, presidente não deve dormir mal, não é mesmo?

Custa R$ 7.800, mas consigo fazer pra você por R$ 2.400“. Valeu, companheiro! Se não fosse Clayton, o que seria de mim?

Estava um pouco incomodado, achando o vendedor grudento demais e tentando me enrolar. Decidimos sair. Mas como? A insistência aumentou. O Colchão que sairia 2.400 reais já havia atingido incríveis R$ 2.000 redondos em 8x. Clayton nos avisou que a qualidade dos colchões da concorrente ao lado eram muito inferiores. Pediu por favor deixe aqui o carro, para você voltar à loja e comparar os colchões antes de comprar, tenho certeza que você vai voltar. Deixamos.

Tentamos a segunda loja. Ao entrar, o susto foi grande: por que tantos médicos saídos do hospital estavam comprando colchões naquele exato momento? Ah! Não eram médicos. Eram vendedores que usam jaleco. E o Dr Colchão então nos disse:

Essa marca é importada, e agora fabricam no Brasil“. A mensagem é dada de forma tão rápida que é impossível dizer ao certo se o produto é nacional ou estrangeiro.

É o colchão da suíte presidencial do Hotel Fasano“. Caramba. Você não leu errado. Outra marca que é usada no Fasano. Esse hotel muda de colchão como quem troca de lençol.

Perfect Super Elegant Comfort Extra Plus“. Que é melhor que a versão sem o Plus. Seja lá o que quer dizer. Só faltou ser gourmet.

Da terceira loja em diante, o procedimento se repete. Já experimentamos tantos colchões que não podemos dizer a diferença entre eles. Voltamos à primeira loja para buscar o carro, de maneira bem discreta para não atrair a atenção de Clayton, que deve ter ficado um pouco chateado de termos usado o estacionamento e não fechado a grande negociação de 7.800 por apenas 2.000.

Seis meses depois. Sim, seis meses pra passar o trauma. Um sábado com águas de março em São Paulo. Estacionamos na rua Augusta, corremos sem guarda-chuvas até mais uma loja de colchões. Experimento o primeiro. Sou o único, pois Marcela se nega. Não quer participar do drama. Cabeça no travesseiro, tênis em cima da capinha protetora. Danilo, o vendedor-sem-jaleco, diz que é o mais firme que possuem. Pergunto, com muito cuidado, qual seria o melhor colchão que a loja possui. Marcela prefere nem olhar. Ele aponta para um outro e se mantém quieto. Marcela vai ver travesseiros para passar o tempo, continua sem vontade de participar da busca sem fim. Danilo mostra mais um. Nenhuma menção a hotel algum. Nenhuma menção a uma agência espacial. Repito o ritual do teste, que novamente não indica muita coisa. “É esse!”. Em 30 minutos, estávamos saindo.

O colchão chega essa semana. Torço para que seja tão bom quanto dormir no tal hotel Fasano. Obrigado Danilo por me fazer recuperar a fé nos vendedores de colchões.

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Como tive um dos dias mais felizes de minha vida ou “o resgate do resgate”

Achei que um dia, para ser considerado um dos mais felizes da minha vida, deveria ser com a última sexta-feira, quando descobri que seria tio de uma menina. Ou como hoje, que saio de férias junto com Marcela, que faz aniversário. Mas o sábado passado veio para desfazer meus preconceitos contras as platitudes facebuquianas: a felicidade está na mudança abrupta de expectativas. Eis o meu relato sabatino. Ele não é curto, mas garanto que, ao término da leitura, verá como foi edificante para mim.

Despertei as 6:10 em ponto, em Brasília. Dormi apenas duas horas e já precisava ir ao aeroporto. Antes de decolar, às 8:00, liguei para meu sogro, sr Maurício, afim de saber se estava tudo preparado para o carreto. Carreto o qual transportaria geladeira, duas camas, uma mesa, um armário e cadeiras para uma pequena casa que estamos construindo na chácara. Sr Maurício disse que estava tudo confirmado, que chegariam às 8:30 e já começariam a preparar tudo. Esperávamos sair às 9:30 e estar de volta ao meio dia, no mais tardar.

Aterrissei às 9:35 em São Paulo. Enquanto pegava o táxi para casa, liguei uma segunda vez para o sr Maurício. O carreto ainda não havia chegado: sr José, o carreteiro, teve dificuldades de achar um ajudante, então estava trazendo um outro conhecido. Eu fui enfático na necessidade de mais de uma pessoa, pois conheço bem meu sogro e meu pai: sem o ajudante, os dois fariam questão de carregar boa parte do peso até o caminhão.

Eu estava com muito sono. Sr Maurício também, havia dado plantão no dia anterior. Sr José chegou, por fim, às 10:30. Pelo telefone disse que estava estacionando e que se perdera pela Rua Vergueiro. Só então subiu para buscar o primeiro móvel: uma pesada mesa de madeira. Ao abrir o elevador, conhecemos Sr José pessoalmente pela primeira vez, o estereótipo do que o paulistano chama, talvez preconceituosamente, de ‘pessoa simples’. Um pouco quieto, submisso e cordial.

Em seguida chegou um senhor de uns 65 anos, sr Manoel, mas que tinha o vigor e aparência de seus 85. Sr Manoel era, obviamente, pai do Sr Jose. Não só isso. Qual a nossa surpresa ao saber que ele seria o tal ajudante! Pronto, percebi que teria de passar o dia carregando a geladeira para evitar que pai, sogro e em especial sr Manoel esculhambassem suas colunas vertebrais.

Carregamos uma mesa, um armário e um banco. Deu trabalho. Sr Manoel, o senil ajudante, até que ajudava: bloqueava o infravermelho do sensor do elevador, mantendo-o parado no andar. A conversa começava a fluir, com assuntos relacionados ao clima, ao trabalho e à massa dos diversos objetos erguidos.

Passamos para a segunda fase: ir à casa de meu pai buscar sua antiga geladeira. Ajudamos sr José a estacionar sua pequena carreta Hyundai por perto do prédio. Ao descerem do veículo, percebemos que havia mais uma pessoa: uma menina de cerca de 7 anos. Não basta trazer seu pai para a labuta num sábado chuvoso, né?

Subimos nós 5: eu, sr Mauricio, sr José, seu pai e a garotinha. Entramos na casa dos meus pais e começou o planejamento de como seria melhor retirar a pequena geladeira. Mamãe nos deu uma geladeira grande e bem nova. Ela estava preocupada em como a levaríamos para baixo, confrontando sr José com algumas perguntas básicas. Quando houve um momento propício, papai observou que sr José não aparentava ser muito expedito (um de seus preferidos vocábulos). “Onde vocês conseguiram essa indicação?”. “Vimos num anúncio de poste em Osasco”. Como você já viu, papai estava certo.

Enquanto os outros conversavam, decidi puxar assunto com a menina, a qual supus ser filha do sr José. “Como é seu nome?”. “Nicole!”, respondeu ela com o ar tímido de criança que ainda não deu confiança ao estranho. “Nicole, que nome lindo! E você trabalhando cedinho no sábado! Cadê o papai?”. Esperei que ela erguesse o dedo em direção ao seu José. Nada. Achei que ela estivesse só com vergonha, reforcei a pergunta. “Cadê papai Nicole?”. Ela então sorriu, com a mão na boca, até dizer “Ah… eu não sei explicar direito.”. Pois é. Ela nunca conheceu o pai. Você que já acariciou a barriguinha de uma gordinha e perguntou o nome do bebê já pode dormir mais tranquilo. E sim, depois entendemos que sr José era o avô. “Avô, neta e bisavô fazem carretos em Osasco e região” daria um bom anúncio para colar nos postes de Osasco.

Descemos com camas e colchões além da cobiçada geladeira. Carregamos tudo. Para colocar a grande caixa branca dentro da carreta, foi mais trabalhoso. Claro que sr Mauricio e meu pai também precisaram fazer força, já que o viril ajudante de 65/85 anos virou café com leite. Partimos então para Osasco, onde moram meus sogros, buscar algumas cadeiras restantes antes de partir rumo à Castelo Branco. Fomos em um outro carro, junto com a minha esposa, que acabara de retornar de um curso de auto-maquiagem (sim, isso existe).

Já era uma da tarde quando minha sogra abriu a porta. Sr José ainda não havia chegado. Passaram-se 10, 15, 20 minutos, não conseguíamos contato nem no celular. De repente meu sogro recebeu um SMS do celular do Sr José e leu em voz alta. Tive de pedir para ele me mostrar a mensagem de texto pois não acreditava. No LCD do telefone lia-se “Estamos no cinema”. WTF? No intervalinho de uma geladeira e um fogão, um cineminha? Não deu tempo nem de ficar com raiva, pois logo sr José tocou a campainha, confirmando que havia apenas esbarrado numa mensagem automática de seu Android.

Quando finalmente entraram, minha sogra perguntou o que aquele vôzinho estava fazendo ali carregando peso. Tive de explicar que ele não era um avô que carregava peso, e sim um bisavô, que nem peso poderia carregar.

Fizemos alguns sanduiches para levar no caminho, afinal, deveria levar mais uns 45 minutos para chegar lá, 30 minutos para descarregar e 45 minutos para voltar. Chegaria de volta só as 3 da tarde. Já era um prejuízo grande em relação ao projeto inicial de almoçar em São Paulo. Sr José e toda sua árvore genealógica optaram por comer os sanduíches dentro do caminhão antes de partir, e Nicole para Marcela: “tia, o sanduíche de linguiça tava gostoso, mas deixei o de chocolate pra jantar porque sou ruim de comer!”. A linguiça era salame, o chocolate era nutella.

Marcela dirigia na Castelo Branco. Eu dormia e nem vi o tempo passar.

Chegamos. Agora era só descarregar e voltar pra casa. A chácara tem três platôs. Um primeiro, mais alto, para uma futura casa. O segundo, onde há a edícula que estamos construindo e a piscina. E um terceiro, gramado, para um jardim. A diferença de altura entre os platôs é considerável, são unidos por uma rampa um pouco íngrime. Falamos para sr José estacionar no primeiro platô, que descarregaríamos tudo e desceríamos com os móveis até a edícula. Ele pediu para descer ao segundo platô, para ficar mais próximo e ter menos trabalho. Desaconselhamos na hora: semanas atrás sr Maurício havia atolado o carro ao tentar subir de volta essa rampa, pois a grama torna a subida quase impossível. Ele disse que não havia problema, que a carreta tinha bastante tração e que estava acostumado. Reclamamos. Ele insistiu. Por fim, cedemos.

Se você achava que a história estava sem sal e não tão ruim, pense novamente.

Eram quase 2 horas da tarde quando começamos a descarregar. Não foi tão difícil. Nicole brincava pela grama enquanto colocávamos tudo em seu devido lugar. Bisa Manoel carregava os travesseiros mais pesados. Sr José já podia pensar nos 300 reais que receberia, o trabalho estava próximo do fim.

Todos prontos para ir embora. José, Manoel e Nicole subiram na cabine do caminhão. Comecei me assustando ao perceber que ele não dava a partirda, a bateria falhava. Na quarta tentativa, ligou. Agora só faltava subir a rampinha para ir do segundo platô para o primeiro e seguir na Castelo Branco. Saindo as 2 horas, chegaríamos as 3 como o segundo plano indicava.

Estávamos apreensivos com a subida da rampa. O caminhãozinho começou a subir os primeiros 3 metros, engatado na primeira, com facilidade. Momentos depois começaram as onomatopéias. Os pneus giravam em falso na grama e assoviavam intensamente, até patinarem e formarem pequenos buracos de grama recém-paga. Isso tudo em questão de segundos. Não contente e sem atender aos nossos gritos de ‘espera!’, sr José descia a rampinha e rapidamente acelerava, gerando mais buracos, sujeira, sons diversos e desespero. Sim, o desespero nos arrebatou muito cedo, dado nosso histórico anterior com esse declive. Já o sr José só veio a exibir uma cara de horror, medo e desesperança minutos depois, pois ainda acreditava em seu forte braço e na potente embreagem do caminhãozinho. Depois da segunda ou terceira tentativa, já sabíamos do tamanho do problema.

Tentamos tudo isso que você está sugerindo: papelão, pedaços de madeira, rezas, pegar embalo, tentar subir de segunda marcha, etc. Nicole veio pedir um copo d’água, nem isso tinhámos pra dar naquela construção. Ela tomou torneiral. Depois de mais um bom tempo, decidi ir até a portaria tentar conversar com algum responsável pelo condomínio, pra ver se poderiam ajudar. Já passávamos das 3 da tarde.

Na portaria vi um ponto de luz: o condomínio possui um trator, que ajuda até nesses casos. Liguei para a central, pedindo socorro imediato e remoção de um caminhão atolado. A mocinha me avisou que o tratorista ficava só até às 4. Estaria eu com sorte? Desligo com a central e ligo para o tratorista, com uma velocidade de digitação invejável. Ainda eram 3:40. Ao atender, contei a história acima em uns 45 segundos, e ele foi mais rápido ainda pra dizer que aquele sábado ele saiu mais cedo e estava em Sorocaba. “Condomínio excelente com auxílio tratorista, mas não aos sábados”, daria uma boa propaganda também.

Liguei para Marcela para avisar que não conseguiria socorro, e uma nova boa notícia: Wagner, nosso pedreiro, passou por lá para resolver umas coisas e viu a nossa situação complicada. Ele falou que iria encontrar um amigo para ver se poderia ajudar. Saiu com a moto. Quando eu cheguei, ele não estava mais lá. Nicole, a ruim de comer, já estava devorando o pullman com nutella e brincando com Marcela (“tia, só vou comer metade”). Nicole quer ser “veterinária, bióloga, bióloga marinha e ter um criadouro de borboletas”. Certo Nicole, mas antes você precisa estudar, e antes disso precisa voltar pra casa. De preferência hoje.

Sr José já estava muito quieto, talvez com um pouco de vergonha. Eu estava com uma mistura de raiva e medo. Medo porque começava a escurecer, já eram quase 5 horas da tarde. Nicole e Marcela regavam as plantas. Todos esperávamos pela volta de Wagner. Na minha cabeça eu pensava em como faríamos no caso de não conseguir retirar o caminhão naquele dia. Na verdade, já pensava nisso fazia um bom tempo, mas queria fingir que não. Voltaria com todos para Osasco, 6 num carro, para só na segunda feira ligar para o tratorista sorocabano? Dormir no carro? Ligar pra polícia? Em um momento de profunda agonia, sr Maurício deu a ideia de ligarmos para o seguro do carro e falar que estávamos atolados. Ele só não pensou em como explicar, quando o guincho chegasse, que aquele carro era um transformers-caminhão. Sr Manoel continuava sendo facilmente substituído por um cone. Marcela, ainda toda maquiada, fazia cara de choro, gerando um curioso contraste. A situação era tão ruim que claro que eu tirei um instagram, onde você pode ver Nicole pendurada na Marcela, meu sogro preocupado e sr José em mais uma de suas tentativas inócuas:

Bisa Manoel não estava na foto. Creio que ele estava ajudando a carregar alguns copos. De plástico.

5:30. Wagner chegou de moto, disse que o amigo estava vindo ajudar. Torcia para o amigo dele não ser alguém de 85 anos. Chegaram. Uma caminhonete enorme, muito maior do que você está pensando, com um tal de Willian dirigindo, dizendo que estava indo descarregar e então dava pra dar uma ajuda nesse meio tempo. Descarregar o que, se o caminhão era aberto? Estava escuro e demorei para perceber a caçamba enorme, com entulhos e muita sujeira.

Sim, nosso resgate era, basicamente, um caminhão de lixo. Mas pra gente parecia um trio elétrico, de tanta alegria que nos trouxe.

Willian disse que seria fácil. Sr José pegou as cordas da geladeira e amarrou seu carreto. Willian desceu de ré, bem devagar, até o começo da rampa. O caminhão era tão grande que derrubou um dos mourões. Marcela gritou alguma obviedade do tipo: “não vai descer muito se não vai atolar também”. Impossível! Um daqueles caminhões de lixo que usa rodas duplas era tudo o que precisávamos. Amarramos a outra ponta.

Primeira tentativa. Willian começa a puxar o carreto de sr José e a corda estoura. Rapidamente conseguimos mais cordas para dar uma firme sustentação.

A segunda tentativa é a que demonstrou a sapiência de Marcela. Ao puxar um pouquinho, o pesado caminhão de Willian não girava mais as rodas, mas também não patinava! Atolou. Sim, dois caminhões atolados. E atolou de uma maneira esquisita, no começo da rampa, onde o declive é mínimo! Eu estava atônito. Pensei em ligar pro meu pai e pra minha mãe e pedir colo. Apenas Willian não estava nervoso. Claro, ele estava nessa lama há apenas 20 minutos.

Quando consegui colocar meus pensamentos no lugar, disse: vamos salvar o caminhão grande e depois tratamos do pequeno. Diminuir o prejuízo. Mesmo sem as cordas amarradas o gigante não se movia. Mais tentativas, mais tempo, mais tensão.

Willian disse que areia o ajudaria a desatolar, colocando sob os pneus, para dar atrito. Wagner foi ajudá-lo. Eu já estava acreditando mais em mandinga. Mas eu ainda não estava desesperado. Ainda.

O desespero chegou no momento que percebi onde estava o nosso carro e onde estava o caminhão-caçamba. O gigantão BLOQUEAVA A PASSAGEM DO NOSSO CARRO, mesmo estando no primeiro platô!! Tipo, 3 carros chafurdados na lama. Todos os três! Nem mesmo o plano Z de levar neta, vô e bisavô pra casa estava descartado. O *melhor* plano agora era dormir sem água, sem luz e ao relento, na edícula em construção. Junto com toda a família de Sr José, e talvez com Willian e companhia.

Não poderia ficar pior, poderia?

De repente ouço buzinas. Um carro Honda se aproximando. Wagner disse que eram uns amigos, ele os havia chamado quando percebeu que o grandão também atolou. Willian gritou: “Olhaí, chegou O RESGATE DO RESGATE”. Pois é. Estávamos salvos-salvos com o resgate-do-resgate.

Mas, no *memso* momento em que esse carro estacionava, Willian conseguiu fazer o monstrão desatolar, saindo de segunda marcha, por cima da terra que já estava toda arenosa. Meu grau de felicidade mudou bruscamente. Fiquei muito animado. Querendo ou não, Willian havia desatolado dois carros: o meu e o dele. Só faltaria o carreto do sr José. Mas esse último, se dormisse na chácara, já era lucro!

Willian e Wagner decidiram tentar o mesmo truque com o carreto: jogar areia debaixo de todos os pneus. Bastante areia, em todas as direções. Em menos de 3 minutos sr José já estava fazendo mais uma tentativa e…. com sucesso! Subiu com extrema facilidade. Não acreditava em meus próprios olhos. Comecei a dar saltos e socar o ar, como se fosse o Pelé fazendo um gol, e gritava ‘Yeahhh’, pedindo para Marcela e sr Mauricio me acompanharem nos pulos! Eles não gritaram, nem pularam, mas acho que compartilharam de minha euforia. Falei bem alto “é o dia mais feliz da minha vida!”.

Nesse conto, escrevi 70 parágrafos ladeira abaixo e os dois últimos a redenção. Eis a fóruma da felicidade.

Paguei os 300 ao sr José, perguntei ao Willian quanto lhe devia. “Só 50 da gasolina!”. Deixei 65 reais. Deixaria o quanto tivesse na carteira, mas isso era tudo. “Obrigado patrão, lembre-se da gente quando precisar levar entulho”. Sim Willian, lembrar-me-ei *sempre* de você.

Já estava escuro quando saímos rumo a São Paulo. Ainda paramos no Rei da Pamonha. Vencemos. He-man poderia dar uma lição de moral com tudo isso.

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A palavra ‘sim’ em português

Tenho impressão que isso é forte no país inteiro: basicamente, não utilizamos mais a palavra sim.

Repare:

“Não entendi, aí você pegou a Av. Paulista?”
“Isso!”

“Não entendi, aí você pegou a Av. Paulista?”
“É!”

“Não entendi, aí você pegou a Av. Paulista?”
“Peguei!”

Pode substituir a pergunta por o que você preferir. “Você quer chocolate?”. “Quero”. “É” e “Isso” também aparecem nesse caso, em especial se a conversa já estava em andamento, ou se a pergunta foi feita apenas para confirmar um pensamento. Situações exatamente onde “Sim” deveria se encaixar.

Uma versão em que o sim aparece, mas não isoladamente, é esta: “Você quer chocolate?”. “Quero sim”.

Mas o “Sim”, isolado, soa bastante não familiar. Diferente do “Não”, que aparece o tempo todo.

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Você está aqui! No pálido ponto azul. E estamos lá, em Marte.

A Curiosity pousar em Marte eleva a moral não só dos americanos, mas a de todos nós terráqueos. É como receber as notícias das primeiras viagens para a América e dos encontros com os índios em ~1500, só que, infelizmente, sem os índios.

Separei 3 fotos que mostram o planeta Terra. Repare o tamanho do nosso importante planeta, de 40 mil km de circunferência no equador.

Esta primeira é de autoria da rover Spirit (aquela enviada em 2004, junto com a sua gêmea, a Opportuniy). Tirada em próprio solo marciano. Olha você aí!

Cuidado que há imagens fake, geradas pelos programas de posicionamento das estrelas.

Nesta foto você pode ver a Terra. Mas esse ponto não é a Terra, é Júpiter! Clique nela para poder procurar a nossa casa, vista pela sonda Mars Global Surveyor.

Nesta última foto podemos ver um ponto muito pequeno. É a terra, vista de fora do sistema solar, pela Voyager 1 em 1990, a 6 bilhões de kilometros daqui. A imagem foi batizada de pálido ponto azul por motivos óbvios.

Por que estou animado? Pois neste instante temos um rover que pesa duas toneladas, com um laboratório científico, armado com um laser para destruir rochas, em Marte. Somos nós os alienígenas com lasers desintegradores. Aposto, creio e quero que a Curiosity encontre sinais de (condições de) vida no passado marciano.

Para terminar, fique com alguns dos parágrafos inciais do livro Pálido Ponto Azul, de Carl Sagan, com legendas em português. Um livro que deve ser lido para você pensar melhor o lugar que ocupa no mundo.

“Consider again that dot. That’s here. That’s home. That’s us. On it everyone you love, everyone you know, everyone you ever heard of, every human being who ever was, lived out their lives. The aggregate of our joy and suffering, thousands of confident religions, ideologies, and economic doctrines, every hunter and forager, every hero and coward, every creator and destroyer of civilization, every king and peasant, every young couple in love, every mother and father, hopeful child, inventor and explorer, every teacher of morals, every corrupt politician, every “superstar”, every “supreme leader”, every saint and sinner in the history of our species lived there – on a mote of dust suspended in a sunbeam.
The Earth is a very small stage in a vast cosmic arena. Think of the rivers of blood spilled by all those generals and emperors so that, in glory and triumph, they could become the momentary masters of a fraction of a dot. Think of the endless cruelties visited by the inhabitants of one corner of this pixel on the scarcely distinguishable inhabitants of some other corner, how frequent their misunderstandings, how eager they are to kill one another, how fervent their hatreds.
Our posturings, our imagined self-importance, the delusion that we have some privileged position in the Universe, are challenged by this point of pale light. Our planet is a lonely speck in the great enveloping cosmic dark. In our obscurity, in all this vastness, there is no hint that help will come from elsewhere to save us from ourselves.
The Earth is the only world known so far to harbor life. There is nowhere else, at least in the near future, to which our species could migrate. Visit, yes. Settle, not yet. Like it or not, for the moment the Earth is where we make our stand.
It has been said that astronomy is a humbling and character-building experience. There is perhaps no better demonstration of the folly of human conceits than this distant image of our tiny world. To me, it underscores our responsibility to deal more kindly with one another, and to preserve and cherish the pale blue dot, the only home we’ve ever known.”

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A resistência de Ziraldo ao ebook

Acho interessante ver como ícones importantes das nossas vidas teimam em resistir a mudanças. De mudanças que eles consideram negativas, sem muito embasamento. Durante a bienal do livro de 2012, Ziraldo atacou o livro digital. Chamou até os filhos da geração atual de idiotas, ou algo bem próximo a isso. Eu não entendo os problemas de foco e atenção da geração Y. Ziraldo vai além.

Em vez de trabalhar junto com as mudanças, insistem apostar na contra mão, querem provar que o jeito deles é melhor que o da nova geração (aliás, a geração atual se tornou ‘idiota’ para Ziraldo). Para o bem ou para o mal, Ziraldo será engolido por essas mudanças.

Lembro de um artigo sobre a troca de imagens íntimas entre pré adolescentes através da internet. O articulista foi muito feliz e sensato, começando o artigo com algo como “essa exposição das crianças é um fato. elas vão enviar essas fotos. precisamos então saber como trabalhar com essa realidade”. Isso se aplica bem ao ebook.

Vou ulular ao dizer que haverá sempre espaço para o livro físico. Assim como há para o vinil, para o CD. Seja pela qualidade, intimidade ou por mera nostalgia. Difícil mesmo é saber se haverá espaço para ouvir as inseguranças de Ziraldo.

Claro que há pontos interessantes nas falas do Ziraldo, e que ele quer certamente melhorar a educação brasileira. “Bote um livro na mão do seu filho e ensine o domínio da leitura” é bom. Opinar que nossa geração (ou nossos filhos) está ficando idiota, não é. Aliás, parece uma dessas opiniões sem embasamento estatístico nenhum, dado que na nossa geração não apenas a elite tem acesso ao estudo. Parecido com o mito de que a violência está piorando no mundo.

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Ostentação diante da pobreza deveria ser crime? Justificativas estranhas de Leonardo Sakamoto

O Sakamoto possui um dos blogs mais conhecidos do Brasil. Trata de notícias do cotidiano de forma organizada, opinativa e muito interessante.

Hoje ele escreveu sobre os arrastões nos restaurantes paulistanos, politizando o assunto.

Sakamoto diz: “‎Não defendo essa opcão, mas sabemos que, dessa forma, o jovem pode ajudar a família…” em outras palavras “não defendo, mas já defendendo…”. Vá ver qual é a porcentagem dos criminosos que ajudam a família com o dinheiro dos assaltos a restaurantes. Piegas achar que ele assalta para levar leite para a família. Piegas, mentiroso, deceptivo. Por que o outro, na mesma situação, não foi também assaltar?

Eu também sou do espírito karamazoviano de que “todos somos culpados por tudo”. Mas achar que um problema melhoria de alguma forma com uma atitude dessas? De que todos devemos abdicar da vida, um Tolstoi, um Ghandi? Vai bem de encontro com a vontade de poder. É a favor da moral dos ressentidos. Só falta ele achar que vai herdar os reinos dos céus por abdicar o reino da terra…

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Por conta da revista Veja: a língua portuguesa

Vícios de linguagem. A revista Veja publicou um artigo alertando o excesso de uso da locução “por conta de, comparando-a à expressão “a nível de“. Louvável. E curioso.

Curioso: se você fizer uma rápida pesquisa no Google, verá que o site veja.abril.com.br tem mais de 29 mil ocorrências de “por conta de“. Indo além, a revista emprega mais de 2 mil vezes o termo “a nível de”. E para estarrecer: o próprio autor do artigo usa a criticada locução 30 vezes em seu blog!

Como bom anti-vejista clichê, não deixei barato. Twitei para o autor, que me respondeu prontamente na defensiva. Disse que os casos relatados são todos no sentido causal, mas bem que poderiam ser substituídos por “em razão de“, “em decorrência de” ou “devido a“, conforme ele mesmo indicou.

Prefiro ouvir os ensinamentos do Bechara, que aceita muito bem os excessos do popular, a nível de “risco de vida“. Um post curto e chato, por conta da falta de modéstia da revista.

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Chico Buarque e o pretérito imperfeito

Estou cada vez mais intrigado com o uso do pretérito imperfeito no lugar do futuro do pretérito. Da próxima vez que eu for recriminado pelo uso de “Eu queria (quereria) um BigMac“, cantarei um Chico Buarque:

Ah, se eu soubesse não andava na rua.
Ah, se eu pudesse te diria na boa.
Ah, se eu soubesse nem olhava a lagoa.
Ah, se eu pudesse não caía na tua.

Repare que apenas a segunda frase emprega o imperfeito do subjuntivo + futuro do pretérito. Todas as outras utilizam o imperfeito do indicativo. Para ficar homogêneo, a segunda frase deveria ser “se eu pudesse te diZia na boa”, ou então todas as outras deveriam mudar (andaria/olharia/cairia), utilizando a norma culta.

A letra completa está aqui.

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cotidiano, literatura

Pula, viadinho!

Mesmo com seus pais presentes na beira da piscina, sou o único a incentivar meu sobrinho, “você também consegue!”, e ele sobe graciosamente o fim da pequena escada copiando os recentes movimentos do irmãozinho.

Um pé para cima, procura o degrau com a ponta do dedão, leva a cintura para um lado quase como uma dança, “tiooo, tá me vendo?”, meneia a cabeça evitando acenar, outro degrau. Sua mão desliza e faz ranger o metal com a delicada fricção, procura pelos olhos do pai.

Quer surpreende-lo repetindo o salto do caçula, mas meu irmão fita o jornal e finge ignorar os putos que caçoam e sempre caçoaram de seu magro Rafael. Vira a página, mais um fuxico, outro comentário ali, “é
o bichinha”, e risos, e soslaios, um dedo indicador no ar, galhofa.

Rafael chega ao topo, pensa, estende o pescoço para mensurar o desafio, sem soltar nenhuma mão das alças do corrimão. Plantas dos pés arqueadas evitam a umidade e a baixa temperatura da plataforma. Os olhos dos vizinhos parecem gravitar a sunga azul do menino, e o interior paulista segue com sua merda preconceituosa.

Pega impulso, reflete, vacila, essa demora me consome, difícil esperar mais. Dá um passo rápido e hesita com um sorriso sem mostrar dentes, estou farto, impaciente, cerro minhas mãos com força uma vez, duas vezes, mas agora me é impossível… e confesso, sozinho na voz e uníssono em pensamento, num bramido: “Pula, viadinho!”.

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Viu como eu não estava mentindo?

Avenida Paulista, sexta-feira, 18:30. Dois paulistanos, um canadense, trajeto consolação-paraíso. Hora do rush para nós pedestres e a aglomeração é grande para as largas calçadas da avenida. Conversa em inglês já na altura do MASP:

– So are we heading to a sushi place?
– Yep. It’s not far from here, it won’t take too much longer. – pronuncio com erros e acentos brasileirescos.

O canadense caminha sempre entre os dois brasileiros, numa velocidade acima do esperado.

– Que língua vocês estão falando? – uma vez feminina

Só eu ouço. Vem de trás. Por um átimo não percebo que a pergunta se dirige a nós.

De soslaio noto que a pré-adolescente usava um tom relativamente infantil para a sua idade. Reluto se devo responder.

– Inglês.
– Que legal! bliu bla isbliu lau lou – balbucia quase que insanamente numa tentativa de emitir sons próximos da tal língua, e para minha maior estranheza completa: – Eu falo alemão!

Pausa, comprova:

– Wie heisst du?
– Ich heisse Roberto, un du?

Recebe a informação assustada, para de andar, interminável intervalo de 3 segundos. Conclui:
– Viu como eu não estava mentindo?

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