literatura

Goethe e uma definição de grande amizade

“… sua convivência com Wilhelm era uma discordância contínua, que, no entanto, e por isso mesmo, contribuía para solidificar mais seu afeto, pois, a despeito de suas diferentes maneiras de pensar, cada qual auferia vantagens do outro. Werner se gabava de haver posto rédeas e freios ao excelente, embora por vezes exaltado, espírito de Wilhelm, e este experimentava com frequencia um triunfo grandioso quando conseguia arrastar para dentro de sua efervescência o circunspecto amigo. E assim se exercitavam reciprocamente, estavam habituados a se ver todos os dias, e poder-se-ia mesmo dizer que a impossibilidade de se compreenderem aumentava o desejo dos encontros e discussões mútuas. Mas, no fundo, os dois, que eram boas pessoas, caminhavam lado a lado, rumo a um único objetivo, e jamais puderam compreender por que afinal nenhum deles era capaz de reduzir o outro a seu próprio modo de pensar.”

Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister.

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Existencialismo, Humanismo e Absurdismo

‘Existencialismo é um humanismo’ foi menos traumático do que esperava. Sartre utiliza uma linguagem simples, sem milhares de referências.

Não fiz a tradução livre para não correr o risco de cometer erros graves. Seguem passagens que, para mim, remetem fortemente a leituras recentes que fiz:

“Acune morale générale ne peut vous indiquer ce qu’il y a à faire; il n’y a pas de signe dans le monde“, me faz lembrar a discussão da moral em Além do bem e do mal.

“Et, par ailleurs, dire que nous inventons les valeurs ne signifie pas autre chose que ceci: la vie n’a pas de sens, a priori (…) mais c’est à vous de lui donner un sens, et la valeur n’est pas d’autre chose que ce sens que vous choisissez.”. Ao mesmo tempo que se lança para o absurdismo do Camus, tem uma solução bem diferente. Camus afirma que você não deve dar sentido para a vida, pois não há. Seria um suicídio filosófico, termo que utiliza em o Mito de Sisifo.

“La seule chose qui permet à l’homme de vivre, c’est l’acte”. Aqui é fácil. Aparece muito em Memórias do Subsolo e Crime e Castigo. O homem de ação versus o contemplador. Em Memórias do Subsolo, o heroi afirma que não age pois sabe que mesmo com o resultado da ação, não chegará a nada.

“C’est en poursuivant des buts transcendants qu’il (l’homme) peut exister”. Soa para mim Zaratustra: “What is great in man is that he is a bridge and not a goal”.

É sempre fácil encaixar as últimas leituras que fazemos. Mesmo Sartre desprezando Nietzsche. Preciso tomar mais cuidado com a subjetividade da leitura.

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Como nasceu a literatura?

Nabokov, no livro Lições de literatura, diz que “Great novels are above all great fairy tales….Literature does not tell the truth but makes it up. It is said that literature was born with the fable of the boy crying, ‘Wolf! Wolf!’ as he was being chased by the animal. This was not the birth of literature; it happened instead the day the lad cried ‘Wolf!’ and the tricked hunters saw no wolf….the magic of art is manifested in the dream about the wolf, in the shadow of the invented wolf.“. Em russo aqui. Em inglês. A literatura nasceu quando o homem aprendeu a mentir, a criar, a inventar.

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literatura

A involução do racismo nas olimpíadas: de Jesse Owens a Usain Bolt

Usain Bolt foi ovacionado de maneira ímpar em Londres 2012. Um herói não só na Jamaica. Todos querem estar com ele. Patrocinadores abundam.

Curiosamente, parece que o afro americano Jesse Owens teve uma recepção não muito aquém na … Alemanha nazista! Quatro medalhas de ouro em 1936 e um ambiente que em teoria lhe deveria ser hostil.

Quando indagado a respeito do tratamento na Alemanha, as frases de Jesse Owens são aterrorizantes. “After all those stories about Hitler and his snub, I came back to my native country and I couldn’t ride in the front of the bus, I had to go to the back door. I couldn’t live where I wanted. Now what’s the difference?… in Germany I didn’t have to sit at the back of the bus“. E ao ser recebido no famoso Waldorf Astoria, foi obrigado a tomar o elevador de serviço. Cerca de 70 anos após o fim da escravidão nos Estados Unidos.

Ainda não chocado o suficiente? O atleta não conseguiu patrocínio nos Estados Unidos. Na Alemanha, os irmãos Dassler ofereceram os tênis de corrida como patrocínio. Esses irmãos são os fundadores da Adidas e da Puma. Mais: Owens diz que o povo alemão clamava seu nome e insistia por autógrafos e fotos. Afirma que Hitler não o esnobou, e sim o presidente dos Estados Unidos. Para receber os parabéns na casa branca, Roosevelt não convidou os negros que trouxeram o ouro. Convidou apenas os brancos.

Jesse Owens sempre me vem a cabeça. Talvez como um bom exemplo do chavão de que os vencedores são quem contam a história.

Não dá para ter desgosto apenas com a Alemanha nazista. Tanto as potências do eixo quando dos aliados cometeram barbaridades. Os campos de concentração de japoneses nos Estados Unidos são um outro caso inconcebível.

E Usain Bolt? É apenas para comparar a receptividade natural que um campeão negro tem hoje em (quase?) todo o mundo, com o recebido por Owens dentro de sua própria casa. Não sei se podemos utilizar isso como medida do nível da estupidez humana, mas prefiro pensar dessa forma. Então sim, estamos caminhando em uma boa direção. Devagar, mas caminhando. Aposto e desejo que, em 40 anos, nossos netos sentirão ojeriza ao pensar na maneira como as mulheres, os homossexuais e também as minorias foram tratadas.

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cotidiano, literatura

A resistência de Ziraldo ao ebook

Acho interessante ver como ícones importantes das nossas vidas teimam em resistir a mudanças. De mudanças que eles consideram negativas, sem muito embasamento. Durante a bienal do livro de 2012, Ziraldo atacou o livro digital. Chamou até os filhos da geração atual de idiotas, ou algo bem próximo a isso. Eu não entendo os problemas de foco e atenção da geração Y. Ziraldo vai além.

Em vez de trabalhar junto com as mudanças, insistem apostar na contra mão, querem provar que o jeito deles é melhor que o da nova geração (aliás, a geração atual se tornou ‘idiota’ para Ziraldo). Para o bem ou para o mal, Ziraldo será engolido por essas mudanças.

Lembro de um artigo sobre a troca de imagens íntimas entre pré adolescentes através da internet. O articulista foi muito feliz e sensato, começando o artigo com algo como “essa exposição das crianças é um fato. elas vão enviar essas fotos. precisamos então saber como trabalhar com essa realidade”. Isso se aplica bem ao ebook.

Vou ulular ao dizer que haverá sempre espaço para o livro físico. Assim como há para o vinil, para o CD. Seja pela qualidade, intimidade ou por mera nostalgia. Difícil mesmo é saber se haverá espaço para ouvir as inseguranças de Ziraldo.

Claro que há pontos interessantes nas falas do Ziraldo, e que ele quer certamente melhorar a educação brasileira. “Bote um livro na mão do seu filho e ensine o domínio da leitura” é bom. Opinar que nossa geração (ou nossos filhos) está ficando idiota, não é. Aliás, parece uma dessas opiniões sem embasamento estatístico nenhum, dado que na nossa geração não apenas a elite tem acesso ao estudo. Parecido com o mito de que a violência está piorando no mundo.

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O Idiota, de Dostoievski, no teatro e cinema

Perdi a encenação do Idiota que teve aqui em São Paulo, em cartaz durante mais de um ano. Mas apenas li o livro quando as apresentações estavam para encerrar. Uma pena. Quem sabe não volta ao circuito teatral mais uma vez?

Em compensação, assisti a série russa de 2003, com alguns atores conhecidos. Só consegui comprar em Moscow, sem legendas em inglês. Dependendo da sua opinião em relação a downloads, é possível também baixar via torrent com legendas em inglês.

Akira Kurosawa fez também sua versão (que infelizmente foi editada e lançada com metade da duração prevista), e cita Dostoievski como sendo seu autor preferido, “quem escreve mais honestamente sobre a natureza humana”: “Of all my films, people wrote to me most about this one… …I had wanted to make The Idiot long before Rashomon. Since I was little I’ve liked Russian literature, but I find that I like Dostoevsky the best and had long thought that this book would make a wonderful film. He is still my favourite author, and he is the one — I still think — who writes most honestly about human existence.

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literatura

Aquilo que não é dito: o subsolo em Camus, Dostoievski e Nietzsche

Sei que é covardia fazer a ligação entre Mito de Sísifo e qualquer livro de Dostoievski, mas fá-la-ei. Ao menos memórias do subsolo não é citado em nenhum momento.

“Todo homem tem algumas lembranças que ele não conta a todo mundo, mas apenas a seus amigos. Ele tem outras lembranças que ele não revelaria nem mesmo para seus amigos, mas apenas para ele mesmo, e faz isso em segredo. Mas ainda há outras lembrancas em que o homem tem medo de contar até a ele mesmo, e todo homem decente tem um consideravel numero dessas coisas guardadas bem no fundo. Alguém até poderia dizer que, quanto mais decente é o homem, maior o número dessas coisas em sua mente.” – Memórias do Subsolo, Dostoiévski

“Um homem é mais homem pelas coisas que silencia do que pelas que diz.” – O Mito de Sísifo, Albert Camus.

Nesse capítulo, intitulado ‘A conquista’, há muitas referências para a ação versus contemplação. No melhor estilo do subsolo. “Sempre chega o momento em que é preciso escolher entre a ação e a contemplação… Os conquistadores sabem que a ação é inútil em si mesma.”. Ser ou não ser?

Nietzsche fala de esconder o que se pensa através da escrita. Aforismo 289 de Além do bem e do mal: “Um eremita não crê que um filósofo – supondo que todo filósofo tenha sido antes um eremita – alguma vez tenha expresso num livro suas opiniões genuínas e últimas: não se escrevem livros para esconder precisamente o que se traz dentro de si?”. Nietzche continua, aprofunda-se no subsolo: “ele duvidará inclusive que um filósofo possa ter opiniões ‘verdadeiras e últimas’, e que nele não haja, não tenha de haver, uma caverna ainda mais profunda por trás de cada caverna – um mundo mais amplo, mais rico, mais estranho além da superfície, um abismo atrás de cada chão, cada razão, por baixo de toda ‘fundamentação’. Toda filosofia é uma filosofia-de-fachada – eis um juízo-de-eremita: ‘Existe algo de arbitrário no fato de ele se deter aqui, de olhar para trás e em volta, de não acvar mais fundo aqui e pôr de lado a pá – há também algo de suspeito nisso’. Toda filosofia também esconde uma filosofia, toda opinião é também um esconderijo, toda palavra também uma máscara”.

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O maior dos pesos vem do eterno retorno do mesmo

E se um dia, ou uma noite, um demônio lhe aparecesse furtivamente em sua mais desolada solidão e dissesse: “Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada prazer, cada suspiro e pensamento, e tudo o que é inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terão de lhe suceder novamente, tudo na mesma sequência e ordem – e assim também essa aranha e esse luar entre as árvores, e também esse instante e eu mesmo. A perene ampulheta do existir será sempre virada novamente – e você com ela, partícula de poeira!”. Você não se prostaria e rangeria os dentes e amaldiçoaria o demônio que assim falou? Ou você já experimentou um instante imenso, no qual lhe responderia “Você é um deus e jamais ouvi coisa tão divina!”. Se esse pensamento tomasse conta de você, tal como você é, ele o transformaria e o esmagaria talvez; a questão em tudo e cada coisa, “Você quer isso mais uma vez e por incontáveis vezes?”, pesaria sobre seus atos como o maior dos pesos! Ou o quanto você teria de estar bem consigo mesmo e com a vida, para não desejar nada além dessa última, eterna confirmação e chancela?

— Nietzsche em Gaia Ciência, aforismo 341 (tradução do Paulo Cesar de Souza)

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Niilismo atavista

Bazarov, em Pais e Filhos, de Turgueniev:

O lugar insignificante que ocupo é tão minusculo em comparação com o resto do espaço em que não estou e onde não se importam comigo. A parcela de tempo que hei de viver é tão ridícula em face da eternidade, onde nunca estive e nunca estarei… Neste átomo, neste ponto matemático, o sangue circula, o cérebro trabalha e quer alguma coisa… Que estupidez! Que inutilidade!

E muitos sentem esse mesmo peso do nada. Ele vem dos nossos ancestrais:

Meu pai, ah que me esmaga a sensação do nada!
— Já sei, minha filha… É atavismo.
E ela reluzia com as mil cintilações do Êxito intacto.

Não por acaso, esse poema de Manuel Bandeira chama-se Nietzschiniana. Demorei alguns anos até poder interpretar este, que é um dos poemas preferidos de minha esposa.

Talvez venha de antes de Turgueniev, de antes de Nietzsche. Venha do ato 5, cena 5 de Macbeth:

Amanhã, e amanhã, e ainda outro amanhã arrastam-se nessa passada trivial do dia para a noite, da noite para o dia, até a última sílaba do registro dos tempos. E todos os nossos ontens não fizeram mais que iluminar para os tolos o caminho que leva ao pó da morte. Apaga-te, apaga-te, chama breve! A vida é apenas uma sombra ambulante, um pobre palhaço que por uma hora se espavona e se agita no palco, sem que depois seja ouvido; é uma história contada por idiotas, cheia de fúria e muito barulho, que nada significa.

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Morte de Deus, fim da moral e o super-homem: Nietzsche e Dostoiévski

Na página 109 da tradução de Paulo Bezerra, é revelado o conteúdo do artigo de Ivan Karamazov:

… ele (Ivan Karamazov) declarou em tom solene que em toda a face da terra não existe absolutamente nada que obrigue os homens a amarem seus semelhantes, que essa lei da natureza, que reza que o homem ame a humanidade, não existe em absoluto e que, se até hoje existiu o amor na Terra, este não se deveu a lei natural mas tão-só ao fato de que os homens acreditavam na própria imortalidade. Ivan Fiodorovitch acrescentou, entre parenteses, que é nisso que consiste toda a lei natural, de sorte que, destruido-se nos homens a fé em sua imortalidade, neles se exaure de imediato não só o amor como também toda e qualquer força para que continue a vida no mundo. E mais: então não haverá mais nada amoral, tudo será permitido, até a antropofagia. Mas isso ainda é pouco, ele concluiu afirmando que, para cada indivíduo particular, por exemplo, como nós aqui, que não acredita em Deus nem na própria imortalidade, a lei moral da natureza deve ser imediatamente convertida no oposto total da lei religiosa anterior, e que o egoísmo, chegando até ao crime, não só deve ser permitido ao homem mas até mesmo reconhecido como a saída indispensável, a mais racional e quase a mais nobre para a situacão.

Já na conversa com o diabo (páginas 840), este cita um outro pensamento de Ivan Karamazov (curioso observar como Dostoievski prefere apresentar os profundos pensamentos de Ivan através de outras pessoas). Aqui aparece o Homem-Deus (человеко-бог). Seria o protótipo do super-homem (Übermensch) nietzschiano?

“Quando a humanidade, sem exceção, tiver renegado Deus (e creio que essa era … virá), então cairá por si só, sem antropofagia, toda a velha concepção de mundo e, principalmente, toda a velha moral, e começara o inteiramente novo. Os homens se juntarão para tomar da vida tudo o que ela pode dar, mas visando unicamente à felicidade e à alegria neste mundo. O homem alcançará sua grandeza imbuindo-se do espírito de uma divina e titânica altivez, e surgirá o homem-deus. Vencendo, a cada hora, com sua vontade e ciência, uma natureza já sem limites, o homem sentirá assim e a cada hora um gozo tão elevado que este lhe substituirá todas as antigas esperanças no gozo celestial. Cada um saberá que é plenamente mortal, não tem ressurreição, e aceitará a morte com altivez e tranquilidade, como um deus. Por altivez compreenderá que não há razão para reclamar de que a vida é um instante, e amará seu irmão já sem esperar qualquer recompensa. O amor satisfará apenas um instante da vida, mas a simples consciência de sua fugacidade reforçará a chama desse amor tanto quanto ela antes se dissipava na esperança de um amor além-túmulo e infinito.”

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