kate-and-leo-in-titanic-fashion-wardrobe-1024x656
filmes, política

O que Titanic me ensinou sobre Esquerda e Direita

Era meu primeiro ano de Engenharia na Poli. Seguia os passos de papai e era um fervoroso militante de esquerda. Sentia-me acuado. A Poli é chamada de “ambiente reaça” pelos uspianos. Difícil discutir política numa porção de terra cercada de ‘coxinhas’ por todos os lados. Eu precisava de mais argumentos para minha luta.

Foi então que James Cameron lançou Titanic.

anigif_enhanced-buzz-3997-1387229096-14_preview

Sim, Titanic. Foi esse colosso de aço a minha grande cartada. Finalmente adquiria a prova cabal de como a ‘grande mídia’, em especial Hollywood, mantinha o mundo sob o jugo do ‘capital financeiro’. O filme destruía a ideia de que a mobilidade social seria desejável.

Como? Mostrando, nem tão subliminarmente, que ser pobre é mais divertido que ser rico. Pobre é bondoso, rico é malvado.

Jack conhecia Monet, a arte do belo, vivia sem grandes preocupações. Tinha sorte no jogo. Rose estava presa às atribulações do cotidiano, constantemente sufocada pelas amarras da alta sociedade. Tinha azar no amor.

Jack era livre. Rose não.

Jack sabia cuspir. Rose não.

Aff, que vida hein Rose? Dinheiro não compra felicidade, falei.

Todos conhecem o final, mas vale relembrar como o rico-malvado termina: ele se suicida após uma queda da bolsa. Ah, e ele batia em mulher! E você também não lembra do nome desse pilantra. Porco capitalista.

Mas ainda há minha cena preferida. O clímax da teoria. A dança de Rose nos compartimentos da terceira classe. Veja você mesmo:

O estilo da vida dos ricos era um tédio. Não há música, não há diversão. Apenas falsidade, comidas estranhas e roupas incômodas. E no porão do navio? Pode tirar o salto alto e dançar “como se ninguém estivesse te olhando“. É quase como prever o futuro dos memes do Chapolin Sincero ou da Gina Indelicada no Facebook. “Ah! como a vida é mais divertida sendo pobre e viajando de terceira classe. Por isso, contente-se com a sua vidinha aí. Se você fosse rico, tudo seria muito pior”, concluí. Seria o filme imperialista?

Desde então, eu adorava ver filmes pop com toques de visão política. Ainda gosto. Do anti-imperialismo clássico de Syriana às interpretações no mínimo estranhas de Stalker, passando pela paixão do banqueiro (oi?) Walter Salles em Diários de Motocicleta. Michael Moore, também.

Fui ficando velho e endireitei-me (ha!), como em Edukators. Minhas impressões mudaram um pouco.

A cena da dança de Rose, onde os ratos abundavam, começou a me lembrar de Joãosinho Trinta. “O povo gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual​”. Seria a vida dos miseráveis da terceira classe tão vibrante e colorida? Melhor a mortadela ao caviar?

Jack faz o passo a passo do monomito. É o herói a ser seguido, a combater o mal e as injustiças do mundo. O filme deixava claro o tal padrão capitalista de priorizar os ricos, deixando os pobres afundarem e morrerem sem nada, literalmente. O proletariado deveria então se unir e combater as forças de Billy Zane. Seria o filme marxista?

Não se engane, críticas bem elaboradas à classe média e ao ‘sistema’ ainda são meu fraco. Beleza Americana e a falsidade moral, Revolutionary Road e como o ‘sistema’ pode te subverter (sim, gosto de Sam Mendes, Caprio e Winslet). Também Up in the Air, Dogville e American History X. Blockbusters que muita gente viu e dá para fazer paralelos políticos interessantes.

Mas e aí? O que Titanic me ensinou sobre Esquerda e Direita? Nada! E durante muito tempo eu cri que era insano. Ninguém poderia fazer um filme tão maniqueísta para posicionar-se politicamente, seja de esquerda ou de direita. Até James Cameron filmar Avatar.

012

Padrão
ricos
política

Desigualdade social e Pobreza: 1% dos ricos tem 65 vezes o que os 50% mais pobres têm

A Oxfam é uma instituição internacional contra pobreza. Semana passada publicou um relatório sobre a desigualdade social com números alarmantes. Em especial, 1% dos mais ricos do mundo possui 65 vezes o que os 3.5 bilhões de seres humanos mais pobres têm. Mais ainda: os 85 mais ricos do mundo têm o mesmo que os 3.5 bilhões mais pobres.

ricos

Vale lembrar que isso é para a desigualdade de riquezas, não a desigualdade de receita, do income. A de receita é ‘melhor’. O The Atlantic mostra os números resumidos num excelente artigo. Números chocantes. Alguns infelizes disseram que é uma fantástica notícia:

Não, não é uma fantástica notícia.

Como resolver essa desigualdade? Há duas formas simplistas: tornar os pobres mais ricos ou tornar os ricos mais pobres.

Podemos tentar fazer os dois ao mesmo tempo, tirando dinheiro dos ricos e distribuindo aos pobres. Dá para ser radical para ver se isso realmente pode ajudar. Conta de padaria. É isso que vou fazer aqui. Agradeço qualquer correção.

Imagine que eliminemos os 85 mais ricos do mundo. Eles possuem 1.69 trilhões de dólares. O mesmo que possui a metade pobre da população mundial. Distribuindo esse valor para as 3.5 bilhões de pessoas, esses pobres ficariam 482 dólares mais ricos. Isso mesmo. Se Robin Hood matar Bill o Gates, os grandes marajás do petróleo, o Paulo Lemman, e toda a lista dos 85 mais ricos da Forbes, ele conseguirá distribuir pouco mais que um Playstation 4 para cada pobre do mundo, dobrando suas riquezas. Não parece ajudar muito, parece? Mesmo que tire muitos da linha da miséria por algum tempo, claramente não é sustentável.

Robin-Hood-1Sht-Poster

Podemos tentar ser mais violentos. Vimos que 1% da população de 65 vezes o que tem os 3.5 bilhões de pobres. São 7 milhões de pessoas com 65x o que tem a metade pobre. E se eletrocutarmos todos esses porcos capitalistas? Conseguimos resolver a pobreza e miséria do mundo? Nesse caso, você conseguirá distribuir um bom dinheiro, mas nada que resolva o problema de uma vida permanentemente. Cada um dos 3.5 bilhões de pobres do mundo receberá cerca de 32 mil dólares. Numa única tacada. Isso vendendo todas as ações, propriedades, empresas, terrenos e pertences dos ricos. São 32 mil dólares e só: sem income, sem mais nada. Claro, você pode argumentar que não deveríamos vender os bens dos ricos que geram riquezas. Mas se passássemos as empresas para essas pessoas, os valores anuais seriam muito, muito menores que os 32 mil dólares (lembrando a diferença de wealth e de income inequality que o artigo faz).

Minha diferença com os amigos que se posicionam mais à esquerda é exatamente essa: priorizo o fim da pobreza mais do que uma menor desigualdade social. A esquerda costuma priorizar inversamente. Para mim, isso dá abertura a conhecida piada: “O rico precisa ficar menos rico, mesmo que o pobre fique mais pobre“.

A solução é certamente gerar mais riquezas, redistribuir o dinheiro com programas sociais bem definidos com planos de saída, educação e saúde para todos (pra mim, via repasses a organizações privadas, com vouchers e bolsas para os pobres). Inclusive essa é a conclusão da Oxfam:

  • Cracking down on financial secrecy and tax dodging;
  • Redistributive transfers; and strengthening of social protection
    schemes;
  • Investment in universal access to free healthcare and education;
    Progressive taxation;
  • Strengthening wage floors and worker rights;
  • Removing the barriers to equal rights and opportunities for women

Repare que o fim da propriedade privada, gigantismo do estado e demonização das empresas não estão aqui listadas.

Ao mesmo tempo, fica faltando ressaltar a importância de estimular novos negócios, mercados e iniciativas privadas. Só com uma economia maior e mais forte haverá dinheiro para possibilitar impostos e redistribuição significativos, haja visto que um Playstation 4 para cada pobre não é lá muita coisa. É necessário que o mundo seja mais rico. E ele tem ficado mais rico, com os países pobres menos pobres, com a pobreza e miséria caindo drasticamente nos últimos 30 anos. Esse foi o foco da última carta anual do Bill Gates. Dá para mudar e melhorar? Certamente. Não tenho a resposta, mas algumas soluções antigas me parecem descartáveis.

Padrão