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filmes, política

O que Titanic me ensinou sobre Esquerda e Direita

Era meu primeiro ano de Engenharia na Poli. Seguia os passos de papai e era um fervoroso militante de esquerda. Sentia-me acuado. A Poli é chamada de “ambiente reaça” pelos uspianos. Difícil discutir política numa porção de terra cercada de ‘coxinhas’ por todos os lados. Eu precisava de mais argumentos para minha luta.

Foi então que James Cameron lançou Titanic.

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Sim, Titanic. Foi esse colosso de aço a minha grande cartada. Finalmente adquiria a prova cabal de como a ‘grande mídia’, em especial Hollywood, mantinha o mundo sob o jugo do ‘capital financeiro’. O filme destruía a ideia de que a mobilidade social seria desejável.

Como? Mostrando, nem tão subliminarmente, que ser pobre é mais divertido que ser rico. Pobre é bondoso, rico é malvado.

Jack conhecia Monet, a arte do belo, vivia sem grandes preocupações. Tinha sorte no jogo. Rose estava presa às atribulações do cotidiano, constantemente sufocada pelas amarras da alta sociedade. Tinha azar no amor.

Jack era livre. Rose não.

Jack sabia cuspir. Rose não.

Aff, que vida hein Rose? Dinheiro não compra felicidade, falei.

Todos conhecem o final, mas vale relembrar como o rico-malvado termina: ele se suicida após uma queda da bolsa. Ah, e ele batia em mulher! E você também não lembra do nome desse pilantra. Porco capitalista.

Mas ainda há minha cena preferida. O clímax da teoria. A dança de Rose nos compartimentos da terceira classe. Veja você mesmo:

O estilo da vida dos ricos era um tédio. Não há música, não há diversão. Apenas falsidade, comidas estranhas e roupas incômodas. E no porão do navio? Pode tirar o salto alto e dançar “como se ninguém estivesse te olhando“. É quase como prever o futuro dos memes do Chapolin Sincero ou da Gina Indelicada no Facebook. “Ah! como a vida é mais divertida sendo pobre e viajando de terceira classe. Por isso, contente-se com a sua vidinha aí. Se você fosse rico, tudo seria muito pior”, concluí. Seria o filme imperialista?

Desde então, eu adorava ver filmes pop com toques de visão política. Ainda gosto. Do anti-imperialismo clássico de Syriana às interpretações no mínimo estranhas de Stalker, passando pela paixão do banqueiro (oi?) Walter Salles em Diários de Motocicleta. Michael Moore, também.

Fui ficando velho e endireitei-me (ha!), como em Edukators. Minhas impressões mudaram um pouco.

A cena da dança de Rose, onde os ratos abundavam, começou a me lembrar de Joãosinho Trinta. “O povo gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual​”. Seria a vida dos miseráveis da terceira classe tão vibrante e colorida? Melhor a mortadela ao caviar?

Jack faz o passo a passo do monomito. É o herói a ser seguido, a combater o mal e as injustiças do mundo. O filme deixava claro o tal padrão capitalista de priorizar os ricos, deixando os pobres afundarem e morrerem sem nada, literalmente. O proletariado deveria então se unir e combater as forças de Billy Zane. Seria o filme marxista?

Não se engane, críticas bem elaboradas à classe média e ao ‘sistema’ ainda são meu fraco. Beleza Americana e a falsidade moral, Revolutionary Road e como o ‘sistema’ pode te subverter (sim, gosto de Sam Mendes, Caprio e Winslet). Também Up in the Air, Dogville e American History X. Blockbusters que muita gente viu e dá para fazer paralelos políticos interessantes.

Mas e aí? O que Titanic me ensinou sobre Esquerda e Direita? Nada! E durante muito tempo eu cri que era insano. Ninguém poderia fazer um filme tão maniqueísta para posicionar-se politicamente, seja de esquerda ou de direita. Até James Cameron filmar Avatar.

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