literatura

Sites e truques para achar registros dos seus ancestrais italianos, portugueses e outros

Sempre achei cafona buscar a árvore genealógica da família. Comos e fosse uma corrida para se provar europeu. Bem, fui picado pela curiosidade, para deixar de herança para meus filhos. Além da consulta em cartórios do Brasil, que vão te dar datas e pistas importantes para achar seus antepassados, é fundamental consultar alguns sites da internet:

Para imigração mais recente, procure nessa coleção do family search, que indexou os cartões de imigração de 1902 a 1980:
https://familysearch.org/search/collection/2140223

Foi lá que encontrei os ta-tataravos ucranianos de minha filha, Andrei e Tatiana Turczyk, pais de Jakub; assim como os seus tataravos italianos, Pasquale Vulcano e Filomena Parrilla. Em um bonito cartão:

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Há diversas outras coleções de São Paulo no family search aqui. Mas alguns não estão indexados, como a hospedaria de imigrantes de 1882 a 1925.

Mas não se apavore! Você pode encontrar esses imigrantes mais antigos sem folhear cada página, indo no acervo digital do museu do imigrante ou no arquivo nacional:

Hospedaria de imigrantes, onde encontrei meus tataravos Valentino e Giulia Aiello e meus bisavôs Domenico Menegon e Maria Foratto:
http://200.144.6.120/memoriaimigrante/pesquisa.php?&tipo=Desembarque%20com%20base%20nos%20Livros

No museu do imigrante você também pode fazer semelhante pesquisa:
http://museudaimigracao.org.br/acervodigital/livros.php

E ter como resultado algo bonitinho e pomposo:
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Qualquer dica de outros sites é muito bem vinda!

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literatura

Julieta e o sumiço de Peppa

Eu tinha mais uma reunião na Avenida Paulista, às 16h00. Dessa vez no novo café do Mirante da 9 de Julho, que fica ao lado do MASP. Como estava na região do Paraíso, resolvi ir a pé.

Próximo ao hospital Santa Catarina, dois agentes do Greenpeace me dão ‘Boa tarde’ com os braços estendidos. Passo ileso. Avisto o senhor que vende ‘Papyrus importado do Egito’ e suas relíquias. É aí que encontro uma banca de bonecos artesanais e mesmo de longe reconheço a má educada Peppa Pig. Rónc rónc.

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Ela tem o tamanho ideal e cabe na minha bolsa. Penso: “A Julieta vai amá-la mais ainda”. A artista é simpática porém não me perdoa: R$ 30. “Faço R$50 se você levar o George”. Exagero, dáp só a menina. Passo o restante do dia imaginando qual será a reação da Julieta, minha afilhada de 2 anos, que aprendeu a dançar balé com esta porca e a madame Gazela.

Perto das 19h30 chego à casa de meus pais. Julieta está lá, com os avós. Ela percebe a existência de um pacote parece que pelo cheiro! “Pesenti”. Pede ajuda para abrir. “Peppa”. É isso aí, e o match é perfeito.

Depois da janta, meu pai decide buscar um remédio na casa de minha irmã, mãe de Julieta. Minha mãe e minha irmã ficarão em casa. Fica a 5 minutos de casa e eu aproveito para pedir carona. Minha afilhada não fica para trás e “qué passia”. Descemos os três para a garagem. “Péppa”! Sim, pode levar a Peppa. Descemos os quatro para a garagem.

Dentro do carro, preparamos Julieta no banco de trás. Percebo que ela se distraiu e deixou a porquinha ao lado da cadeirinha. Resolvo dar um susto na pequenina e coloco a Peppa em sobre o teto do carro, do lado de fora, só para escondê-la um pouquinho. Enquanto isso, temos diversos problemas com o fecho da cadeirinha.

Nunca imaginei que passaria por uma situação dessas. Fechar o cinto de segurança dessa cadeirinha é simplesmente rocket science. São três plugues que precisam se encaixar simultaneamente, sem muita clareza.

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Meu pai de um lado do carro, eu pelo outro, ambas as portas traseiras escancaradas. Parecíamos mecânicos em uma tarefa complicada. Tenta daqui, tenta dali e, somente depois da Julieta comunicar uma dica com os dedinhos, logramos êxito.

Partimos. O caminho até a casa da mãe de Julieta é bastante conhecido pela menina. Grita “Bolo!” indicando a proximidade da padaria que frequenta. “Farmácia!”, “Parquinhu!”, “Casa!” e continua acertando as diversas localizações. Ao chegar, meu pai decide subir ao apartamento de minha irmã sozinho para buscar o remédio e eu fico com Julieta aguardando no carro. Assim que a porta é fechada, Julieta me indaga: “Cadê Pêppa?”.

Cadê a porca!? Eu consegui concluir tudo em um átimo, mas ainda tentei procurar. No chão do carro? Nada. Ao lado da cadeirinha? Nada? “Peppa, peppa tiu Paulu”. No banco da frente? “Queru Péppa”. Até esse momento, ainda havia sorrisos no rosto da garota. O desespero tomava conta do meu. Maldita suína, eu a esqueci em cima do carro!

Abro a porta para olhar sobre o carro em uma tentativa que não tinha chance de sucesso: o caminho possui várias ladeiras. Peppa Pig escorregou em algum lugar do caminho. Uma porquinha tão jovem tinha poucas chances de sobreviver sozinha à noite nas ruas paulistanas.

Meu pai chegou enquanto eu ainda estava atônito. “Peppa, tiu Paulu”. Meu pai, ainda sem saber da história, formou coro com a neta: “Onde está a Peppa Juju”? Explico-lhe o ocorrido e ele dá risada ao mesmo tempo que pensa em uma solução. “Cadê Péppa? Peppa! PEPPA PEPPA PEPPA”. A situação piora.

Ligo para minha irmã. “Ana, você pode descer e fazer o caminho do carro?”. Ela decide sair à caça da pequena animala mesmo de pijamas, pois sabe da importância da missão. “Peppa, tiu Paulu, Juju quer Peppa”. Meu pai está me levando para casa e eu tenho elucubrações sobre quando poderei ir novamente à Paulista comprar uma nova Peppa, ou ao menos pechinchar o solitário George pelos R$20 de diferença.

De repente, via Whatsapp, recebo uma única mensagem da minha irmã. É uma imagem. Recomendo discrição ao rolar a página, pois a cena é forte.

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A porca passa bem. Julieta melhor ainda, mesmo sem ainda reencontrar o objeto de desejo. Meu pai me deixa em casa e eu vou me deitar com a tranquilidade de saber que minha afilhada terá uma infância tão boa quanto a minha: com desenhos duvidosos, tios que mimam e bonequinhos hipinotizantes.

Pela manhã, minha mãe me conta que Julieta dormiu agarrada à porca.

Titio bobinho.

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literatura

Le Bourgeois gentilhomme sou eu mesmo

Tinha lido a peça e pela primeira vez fui assistir a ela. Quem não se enxerga um pouco no senhor Jourdain? Querer conhecer as “belas coisas do mundo”, assim como os outros daquela outra classe social.

Durante a peça, o ponto mais encantador não foi descobrir que falo em prosa desde que nasci. Incrível foi ver, durante a lição do filósofo sobre as vogais, que não apenas o sr Jourdain estava ridiculamente praticando o a-e-i-o-u: a plateia toda, sabendo ou não, também repetia cada movimento do lábio ensaiado pelo professor.

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Dizem que algo parecido acontece com o Inspetor Geral. Espero ter a oportunidade de também vê-la encenada.

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cotidiano

O misterioso caso do colchão do presidente da NASA

Retirada do dente do siso. Cancelamento do seu vôo em última hora. Exposições do Romero Britto. Um textão político no Facebook. Tudo isso é fichinha perto da compra de um novo colchão.

Noites mal dormidas e dores nas costas são os primeiros sinais. O colchão é o mesmo há seis anos, hora de procurar um novo. “Alô mãe, onde compra colchão?“. Em São Paulo, há uma região para tal. Na Avenida Ibirapuera, próximo ao shopping. Infelizmente fui convencido a ir até lá.

Há cerca de 6 ou 7 lojas uma ao lado da outra, com nomes estranhos cheios de anglicismos. A primeira loja possui um amplo estacionamento, onde Marcela e eu somos recebidos, com um enorme sorriso, por Clayton. Clayton é eloquente e sempre sorri. Preferimos um colchão mais firme, e somos conduzidos para experimentá-los. O ritual é repetido inúmeras vezes. Deita-se de lado, com a cabeça em travesseiros plastificados, podendo estender os pés, mesmo calçados, em cima do colchão. Há uma curta capa protetora sobre essa parte da cama para evitar sujá-la. Todos se parecem muito, temos sorte de ter o atencioso Clayton por perto para explicar as sutis diferenças:

Molas ensacadas, isoladas, perfumadas, envelopadas e galvanizadas“. Não sei a diferença. Ah! Algumas vezes ele citava bambu. A ideia de dormir em bambus não me era agradável.

Tem a espuma da NASA“. Wow! Da NASA! O que isso quer dizer? Devo dormir naqueles sonhos em que você se sente em queda livre, para imitar um ambiente sem gravidade? É uma espuma que afunda de forma meiga, desenvolvida pelos ‘cientistas americanos’. E basicamente todos têm o tal material.

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Este outro é o colchão da suíte presidencial do Hotel Fasano“. Deve ser bom. Não conheço o hotel, mas tem o nome de restaurante caro. Além disso, presidente não deve dormir mal, não é mesmo?

Custa R$ 7.800, mas consigo fazer pra você por R$ 2.400“. Valeu, companheiro! Se não fosse Clayton, o que seria de mim?

Estava um pouco incomodado, achando o vendedor grudento demais e tentando me enrolar. Decidimos sair. Mas como? A insistência aumentou. O Colchão que sairia 2.400 reais já havia atingido incríveis R$ 2.000 redondos em 8x. Clayton nos avisou que a qualidade dos colchões da concorrente ao lado eram muito inferiores. Pediu por favor deixe aqui o carro, para você voltar à loja e comparar os colchões antes de comprar, tenho certeza que você vai voltar. Deixamos.

Tentamos a segunda loja. Ao entrar, o susto foi grande: por que tantos médicos saídos do hospital estavam comprando colchões naquele exato momento? Ah! Não eram médicos. Eram vendedores que usam jaleco. E o Dr Colchão então nos disse:

Essa marca é importada, e agora fabricam no Brasil“. A mensagem é dada de forma tão rápida que é impossível dizer ao certo se o produto é nacional ou estrangeiro.

É o colchão da suíte presidencial do Hotel Fasano“. Caramba. Você não leu errado. Outra marca que é usada no Fasano. Esse hotel muda de colchão como quem troca de lençol.

Perfect Super Elegant Comfort Extra Plus“. Que é melhor que a versão sem o Plus. Seja lá o que quer dizer. Só faltou ser gourmet.

Da terceira loja em diante, o procedimento se repete. Já experimentamos tantos colchões que não podemos dizer a diferença entre eles. Voltamos à primeira loja para buscar o carro, de maneira bem discreta para não atrair a atenção de Clayton, que deve ter ficado um pouco chateado de termos usado o estacionamento e não fechado a grande negociação de 7.800 por apenas 2.000.

Seis meses depois. Sim, seis meses pra passar o trauma. Um sábado com águas de março em São Paulo. Estacionamos na rua Augusta, corremos sem guarda-chuvas até mais uma loja de colchões. Experimento o primeiro. Sou o único, pois Marcela se nega. Não quer participar do drama. Cabeça no travesseiro, tênis em cima da capinha protetora. Danilo, o vendedor-sem-jaleco, diz que é o mais firme que possuem. Pergunto, com muito cuidado, qual seria o melhor colchão que a loja possui. Marcela prefere nem olhar. Ele aponta para um outro e se mantém quieto. Marcela vai ver travesseiros para passar o tempo, continua sem vontade de participar da busca sem fim. Danilo mostra mais um. Nenhuma menção a hotel algum. Nenhuma menção a uma agência espacial. Repito o ritual do teste, que novamente não indica muita coisa. “É esse!”. Em 30 minutos, estávamos saindo.

O colchão chega essa semana. Torço para que seja tão bom quanto dormir no tal hotel Fasano. Obrigado Danilo por me fazer recuperar a fé nos vendedores de colchões.

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filmes, política

O que Titanic me ensinou sobre Esquerda e Direita

Era meu primeiro ano de Engenharia na Poli. Seguia os passos de papai e era um fervoroso militante de esquerda. Sentia-me acuado. A Poli é chamada de “ambiente reaça” pelos uspianos. Difícil discutir política numa porção de terra cercada de ‘coxinhas’ por todos os lados. Eu precisava de mais argumentos para minha luta.

Foi então que James Cameron lançou Titanic.

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Sim, Titanic. Foi esse colosso de aço a minha grande cartada. Finalmente adquiria a prova cabal de como a ‘grande mídia’, em especial Hollywood, mantinha o mundo sob o jugo do ‘capital financeiro’. O filme destruía a ideia de que a mobilidade social seria desejável.

Como? Mostrando, nem tão subliminarmente, que ser pobre é mais divertido que ser rico. Pobre é bondoso, rico é malvado.

Jack conhecia Monet, a arte do belo, vivia sem grandes preocupações. Tinha sorte no jogo. Rose estava presa às atribulações do cotidiano, constantemente sufocada pelas amarras da alta sociedade. Tinha azar no amor.

Jack era livre. Rose não.

Jack sabia cuspir. Rose não.

Aff, que vida hein Rose? Dinheiro não compra felicidade, falei.

Todos conhecem o final, mas vale relembrar como o rico-malvado termina: ele se suicida após uma queda da bolsa. Ah, e ele batia em mulher! E você também não lembra do nome desse pilantra. Porco capitalista.

Mas ainda há minha cena preferida. O clímax da teoria. A dança de Rose nos compartimentos da terceira classe. Veja você mesmo:

O estilo da vida dos ricos era um tédio. Não há música, não há diversão. Apenas falsidade, comidas estranhas e roupas incômodas. E no porão do navio? Pode tirar o salto alto e dançar “como se ninguém estivesse te olhando“. É quase como prever o futuro dos memes do Chapolin Sincero ou da Gina Indelicada no Facebook. “Ah! como a vida é mais divertida sendo pobre e viajando de terceira classe. Por isso, contente-se com a sua vidinha aí. Se você fosse rico, tudo seria muito pior”, concluí. Seria o filme imperialista?

Desde então, eu adorava ver filmes pop com toques de visão política. Ainda gosto. Do anti-imperialismo clássico de Syriana às interpretações no mínimo estranhas de Stalker, passando pela paixão do banqueiro (oi?) Walter Salles em Diários de Motocicleta. Michael Moore, também.

Fui ficando velho e endireitei-me (ha!), como em Edukators. Minhas impressões mudaram um pouco.

A cena da dança de Rose, onde os ratos abundavam, começou a me lembrar de Joãosinho Trinta. “O povo gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual​”. Seria a vida dos miseráveis da terceira classe tão vibrante e colorida? Melhor a mortadela ao caviar?

Jack faz o passo a passo do monomito. É o herói a ser seguido, a combater o mal e as injustiças do mundo. O filme deixava claro o tal padrão capitalista de priorizar os ricos, deixando os pobres afundarem e morrerem sem nada, literalmente. O proletariado deveria então se unir e combater as forças de Billy Zane. Seria o filme marxista?

Não se engane, críticas bem elaboradas à classe média e ao ‘sistema’ ainda são meu fraco. Beleza Americana e a falsidade moral, Revolutionary Road e como o ‘sistema’ pode te subverter (sim, gosto de Sam Mendes, Caprio e Winslet). Também Up in the Air, Dogville e American History X. Blockbusters que muita gente viu e dá para fazer paralelos políticos interessantes.

Mas e aí? O que Titanic me ensinou sobre Esquerda e Direita? Nada! E durante muito tempo eu cri que era insano. Ninguém poderia fazer um filme tão maniqueísta para posicionar-se politicamente, seja de esquerda ou de direita. Até James Cameron filmar Avatar.

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literatura

O nascimento da consciência

Hoje, li um trecho de Brodsky, na eterna tentativa de obter algo de cada nobel da literatura. Curiosamente o texto aborda uma questão da que sempre gostei: em que momento nasce a consciência em uma criança? Quando é que passamos a ser?

A definição de Brodsky pode ser poética, mas sem dúvida interessante: “a verdadeira história da sua consciência começa com sua primeira mentira“.

Ele ainda relembra a primeira mentira que contou na vida. Na União Soviética, ele precisava preencher o formulário de cadastro para a professora. Há o campo cidadania e o campo nacionalidade. Em cidadania, ele era russo, mas na nacionalidade respondeu não saber. Mentiu. Sabia que era judeu. A professora mandou voltar pra casa e perguntar aos pais. Tanta coisa ao mesmo tempo…

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Lembra-me seu conterrâneo e também vencedor do Nobel. Nabokov disse que a literatura não nasceu quando alguém contou uma história, e sim quando o menino mentiu que havia um lobo e gritou por ajuda. O cry wolf.

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ricos
política

Desigualdade social e Pobreza: 1% dos ricos tem 65 vezes o que os 50% mais pobres têm

A Oxfam é uma instituição internacional contra pobreza. Semana passada publicou um relatório sobre a desigualdade social com números alarmantes. Em especial, 1% dos mais ricos do mundo possui 65 vezes o que os 3.5 bilhões de seres humanos mais pobres têm. Mais ainda: os 85 mais ricos do mundo têm o mesmo que os 3.5 bilhões mais pobres.

ricos

Vale lembrar que isso é para a desigualdade de riquezas, não a desigualdade de receita, do income. A de receita é ‘melhor’. O The Atlantic mostra os números resumidos num excelente artigo. Números chocantes. Alguns infelizes disseram que é uma fantástica notícia:

Não, não é uma fantástica notícia.

Como resolver essa desigualdade? Há duas formas simplistas: tornar os pobres mais ricos ou tornar os ricos mais pobres.

Podemos tentar fazer os dois ao mesmo tempo, tirando dinheiro dos ricos e distribuindo aos pobres. Dá para ser radical para ver se isso realmente pode ajudar. Conta de padaria. É isso que vou fazer aqui. Agradeço qualquer correção.

Imagine que eliminemos os 85 mais ricos do mundo. Eles possuem 1.69 trilhões de dólares. O mesmo que possui a metade pobre da população mundial. Distribuindo esse valor para as 3.5 bilhões de pessoas, esses pobres ficariam 482 dólares mais ricos. Isso mesmo. Se Robin Hood matar Bill o Gates, os grandes marajás do petróleo, o Paulo Lemman, e toda a lista dos 85 mais ricos da Forbes, ele conseguirá distribuir pouco mais que um Playstation 4 para cada pobre do mundo, dobrando suas riquezas. Não parece ajudar muito, parece? Mesmo que tire muitos da linha da miséria por algum tempo, claramente não é sustentável.

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Podemos tentar ser mais violentos. Vimos que 1% da população de 65 vezes o que tem os 3.5 bilhões de pobres. São 7 milhões de pessoas com 65x o que tem a metade pobre. E se eletrocutarmos todos esses porcos capitalistas? Conseguimos resolver a pobreza e miséria do mundo? Nesse caso, você conseguirá distribuir um bom dinheiro, mas nada que resolva o problema de uma vida permanentemente. Cada um dos 3.5 bilhões de pobres do mundo receberá cerca de 32 mil dólares. Numa única tacada. Isso vendendo todas as ações, propriedades, empresas, terrenos e pertences dos ricos. São 32 mil dólares e só: sem income, sem mais nada. Claro, você pode argumentar que não deveríamos vender os bens dos ricos que geram riquezas. Mas se passássemos as empresas para essas pessoas, os valores anuais seriam muito, muito menores que os 32 mil dólares (lembrando a diferença de wealth e de income inequality que o artigo faz).

Minha diferença com os amigos que se posicionam mais à esquerda é exatamente essa: priorizo o fim da pobreza mais do que uma menor desigualdade social. A esquerda costuma priorizar inversamente. Para mim, isso dá abertura a conhecida piada: “O rico precisa ficar menos rico, mesmo que o pobre fique mais pobre“.

A solução é certamente gerar mais riquezas, redistribuir o dinheiro com programas sociais bem definidos com planos de saída, educação e saúde para todos (pra mim, via repasses a organizações privadas, com vouchers e bolsas para os pobres). Inclusive essa é a conclusão da Oxfam:

  • Cracking down on financial secrecy and tax dodging;
  • Redistributive transfers; and strengthening of social protection
    schemes;
  • Investment in universal access to free healthcare and education;
    Progressive taxation;
  • Strengthening wage floors and worker rights;
  • Removing the barriers to equal rights and opportunities for women

Repare que o fim da propriedade privada, gigantismo do estado e demonização das empresas não estão aqui listadas.

Ao mesmo tempo, fica faltando ressaltar a importância de estimular novos negócios, mercados e iniciativas privadas. Só com uma economia maior e mais forte haverá dinheiro para possibilitar impostos e redistribuição significativos, haja visto que um Playstation 4 para cada pobre não é lá muita coisa. É necessário que o mundo seja mais rico. E ele tem ficado mais rico, com os países pobres menos pobres, com a pobreza e miséria caindo drasticamente nos últimos 30 anos. Esse foi o foco da última carta anual do Bill Gates. Dá para mudar e melhorar? Certamente. Não tenho a resposta, mas algumas soluções antigas me parecem descartáveis.

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literatura, religião

A definição de niilismo?

Pondé diz uma coisa, seu professor diz outra e encontramos uma terceira abordagem em Dostoiévski. Passivo, ativo, contemporâneo, trasnvaloração, nenhum valor, etc. Tenho bastante dificuldade.

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Lendo o Homem Revoltado, de Camus, encontrei algumas citações a Nietzsche que parecem se encaixar bem. Infelizmente Camus cita Nietzsche livremente, sem fazer a referência a qual aforismo de qual livro se trata.

“O niilista não é aquele que não crê em nada, mas o que não crê no que existe.”

Para mim, essa definição ajuda bastante. Outras passagens reforçam:

Se o niilismo é a incapacidade de acreditar no que existe, seu sintoma mais grave não se encontra no ateísmo, mas na incapacidade de acreditar no que existe, de ver o que se faz, de viver o que é oferecido“.

Um exemplo disso? “O cristianismo acredita lutar contra o niilismo, porque ele dá um rumo ao mundo, enquanto ele mesmo é niilista na medida em que ao impor um sentido imaginário à vida impede que se descubra seu verdadeiro sentido“. E passa a também raciocinar sobre o niilismo do socialismo.

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literatura

Orgulho e Preconceito na Quarta Extra

Quarta Extra. É com esse nome que se chama a grande promoção que o supermercado realiza toda quarta feira.

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Na semana passada, estive no Extra da Ricardo Jafet com Marcela. Aberto 24 horas. Gigantesco. Posto de gasolina em frente. Marcela não gosta muito de fazer as compras nesse dia da semana por lá: as prateleiras parecem ter sido atingidas por um grupo de figurantes do Walking Dead e sobreviventes, com alguns produtos derrubados e outros abertos. Sinal do sucesso!

Paro o carro no estacionamento, que fica embaixo do mercado, mas longe do acesso das escadas rolantes. Há poucas vagas. Pegamos um carrinho de compras e subimos.

O ambiente é bastante familiar. Há até espaço para massagens, cabeleireiro, venda de peixinhos e uma farmácia. Não posso deixar de comentar sobre a musicalidade do ambiente. Naldo e Jorge Vercillo parecem estar no repeat. Naldo toca o Whisky ou Água de Coco, Pra cima! Já Jorge Vercillo tem uma música do homem-aranha. Ponto para o Naldão.

Fico na seção das carnes, pois preciso organizar o churrasco. Com a idade, estou assumindo esse meu lado tiozão. Marcela visita, com o carrinho de compras, diversas seções onde geralmente não sei distinguir um produto do outro. Em 20 minutos estamos no caixa, pedindo o CPF na nota.

Descemos. Paramos o carro longe das escadas rolantes. Cruzamos toda a garagem até o lado oposto, quando começamos a mover as nossas compras do carrinho para o porta-malas.

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Fechado o porta-malas, chega o grande momento da Marcela: levar o carrinho de compras para o seu devido lugar. Preciso frisar que Marcela tem alguns TOCs-positivos, como todos nós. Um deles, por exemplo, é com lixo reciclável: ela pode surtar se alguém não separá-los ou dispensá-los indevidamente. O outro é com a carrinhos de compra de supermercado: é necessário levá-los até seu ninho principal, e nunca largá-los no meio do estacionamento ou nos sub-ninhos (aqueles pequenos grupos de carrinhos que acabam se amontoando pela preguiça de nós, compradores). O ninhão de carrinhos de compra está longe, bem longe, lá no acesso às escadas rolantes.

“Paulo, eu vou levar o carrinho até lá e você me pega na porta de vidro das escadas rolantes, tá?” Tá!

Dou a partida do carro e saio pelo corredor, em direção a saída. Chegando próximo das escadas rolantes, vejo um senhor mais velho, com a aparência muito humilde, de camiseta de futebol pra lá de velha. Ele carrega duas pequenas sacolas do supermercado e vai em direção a um corcel bastante judiado. Minha cabeça começa a pensar nas possibilidades: estou feliz que muitas pessoas possam ter acesso a um supermercado não tão barato quanto o Extra. Como é possível haver alguém que seja contra o acesso universal de bens que antes só a classe média privilegiada tinha? Como é possível haver alguém que seja contra a orkutização dos aeroportos? (sim, esses são os pensamentos que estavam na minha cabeça naquele momento final das compras). Sobre os aeroportos, tenho visto cada vez mais gente tirando fotos de seus primeiros vôos. É facil encontrar algum adulto que esteja viajando pela primeira vez, e é difícil que ele contenha a emoção e a adrenalina, além de querer registrar tudo no seu smartphone! Uma pena algumas pessoas se sentirem incomodadas com isso. Apenas um desses seres é muito combustível para o blog do Sakamoto!

Faço a curva em direção ao posto de gasolina, logo após a saída do supermercado. Vou desacelerando pois há uma cancela. Repentinamente vejo que algo está errado, o meu instinto-aranha-vercillo percebe um vulto em um dos retrovisores.

Sim, o possível bandido que me aborda na saída do supermercado é a própria Marcela, que vem com ar ofegante, me seguindo com passos apertados. Eu só não tomo um susto maior pois, ao mesmo tempo que preciso descobrir quem está do lado de fora, dou pela falta dela!

Aqui tudo acontece muito rápido: fico preocupado, temendo pela minha integridade física, ao perceber que praticamente esqueci a Marcela no supermercado em um intervalor de 2 minutos! E nem no Gmail eu estava! Qual seria o estado de espírito dela nesse momento? Penso tudo isso enquanto aperto o botãozinho do vidro elétrico. Eu vou me desculpar, mas ela está sorrindo e diz que “desde o lugar combinado você estava andando devagar, então eu vinha correndo atrás achando que um pouquinho mais pra frente iria parar!”. Destravo a porta do passageiro, ela entra sem entender muito bem o que eu aconteceu comigo.

Já que ela continua sorrindo, e como nenhuma mentira apropriada me dá na veneta, eu confesso: “Esqueci você!”.

Um simples LOL não basta. É UHhuauahuahuHAuHAuah. É a onomatopéia mais próxima do que aconteceu.

Ela entra no carro, contina sorrindo, e eu gargalhando. Gargalhando ao volante, daquele jeito que dói o abdomen, por grande parte da Ricardo Jafet. O downside da história é que Marcela ficou arisca a ideia de eu levar os futuros bebês no carro sem ela.

Marcela, por favor, dê risada novamente enquanto relembra dessa sua quarta-feira.

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