literatura

Sites e truques para achar registros dos seus ancestrais italianos, portugueses e outros

Sempre achei cafona buscar a árvore genealógica da família. Comos e fosse uma corrida para se provar europeu. Bem, fui picado pela curiosidade, para deixar de herança para meus filhos. Além da consulta em cartórios do Brasil, que vão te dar datas e pistas importantes para achar seus antepassados, é fundamental consultar alguns sites da internet:

Para imigração mais recente, procure nessa coleção do family search, que indexou os cartões de imigração de 1902 a 1980:
https://familysearch.org/search/collection/2140223

Foi lá que encontrei os ta-tataravos ucranianos de minha filha, Andrei e Tatiana Turczyk, pais de Jakub; assim como os seus tataravos italianos, Pasquale Vulcano e Filomena Parrilla. Em um bonito cartão:

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Há diversas outras coleções de São Paulo no family search aqui. Mas alguns não estão indexados, como a hospedaria de imigrantes de 1882 a 1925.

Mas não se apavore! Você pode encontrar esses imigrantes mais antigos sem folhear cada página, indo no acervo digital do museu do imigrante ou no arquivo nacional:

Hospedaria de imigrantes, onde encontrei meus tataravos Valentino e Giulia Aiello e meus bisavôs Domenico Menegon e Maria Foratto:
http://200.144.6.120/memoriaimigrante/pesquisa.php?&tipo=Desembarque%20com%20base%20nos%20Livros

No museu do imigrante você também pode fazer semelhante pesquisa:
http://museudaimigracao.org.br/acervodigital/livros.php

E ter como resultado algo bonitinho e pomposo:
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Qualquer dica de outros sites é muito bem vinda!

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literatura

Julieta e o sumiço de Peppa

Eu tinha mais uma reunião na Avenida Paulista, às 16h00. Dessa vez no novo café do Mirante da 9 de Julho, que fica ao lado do MASP. Como estava na região do Paraíso, resolvi ir a pé.

Próximo ao hospital Santa Catarina, dois agentes do Greenpeace me dão ‘Boa tarde’ com os braços estendidos. Passo ileso. Avisto o senhor que vende ‘Papyrus importado do Egito’ e suas relíquias. É aí que encontro uma banca de bonecos artesanais e mesmo de longe reconheço a má educada Peppa Pig. Rónc rónc.

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Ela tem o tamanho ideal e cabe na minha bolsa. Penso: “A Julieta vai amá-la mais ainda”. A artista é simpática porém não me perdoa: R$ 30. “Faço R$50 se você levar o George”. Exagero, dáp só a menina. Passo o restante do dia imaginando qual será a reação da Julieta, minha afilhada de 2 anos, que aprendeu a dançar balé com esta porca e a madame Gazela.

Perto das 19h30 chego à casa de meus pais. Julieta está lá, com os avós. Ela percebe a existência de um pacote parece que pelo cheiro! “Pesenti”. Pede ajuda para abrir. “Peppa”. É isso aí, e o match é perfeito.

Depois da janta, meu pai decide buscar um remédio na casa de minha irmã, mãe de Julieta. Minha mãe e minha irmã ficarão em casa. Fica a 5 minutos de casa e eu aproveito para pedir carona. Minha afilhada não fica para trás e “qué passia”. Descemos os três para a garagem. “Péppa”! Sim, pode levar a Peppa. Descemos os quatro para a garagem.

Dentro do carro, preparamos Julieta no banco de trás. Percebo que ela se distraiu e deixou a porquinha ao lado da cadeirinha. Resolvo dar um susto na pequenina e coloco a Peppa em sobre o teto do carro, do lado de fora, só para escondê-la um pouquinho. Enquanto isso, temos diversos problemas com o fecho da cadeirinha.

Nunca imaginei que passaria por uma situação dessas. Fechar o cinto de segurança dessa cadeirinha é simplesmente rocket science. São três plugues que precisam se encaixar simultaneamente, sem muita clareza.

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Meu pai de um lado do carro, eu pelo outro, ambas as portas traseiras escancaradas. Parecíamos mecânicos em uma tarefa complicada. Tenta daqui, tenta dali e, somente depois da Julieta comunicar uma dica com os dedinhos, logramos êxito.

Partimos. O caminho até a casa da mãe de Julieta é bastante conhecido pela menina. Grita “Bolo!” indicando a proximidade da padaria que frequenta. “Farmácia!”, “Parquinhu!”, “Casa!” e continua acertando as diversas localizações. Ao chegar, meu pai decide subir ao apartamento de minha irmã sozinho para buscar o remédio e eu fico com Julieta aguardando no carro. Assim que a porta é fechada, Julieta me indaga: “Cadê Pêppa?”.

Cadê a porca!? Eu consegui concluir tudo em um átimo, mas ainda tentei procurar. No chão do carro? Nada. Ao lado da cadeirinha? Nada? “Peppa, peppa tiu Paulu”. No banco da frente? “Queru Péppa”. Até esse momento, ainda havia sorrisos no rosto da garota. O desespero tomava conta do meu. Maldita suína, eu a esqueci em cima do carro!

Abro a porta para olhar sobre o carro em uma tentativa que não tinha chance de sucesso: o caminho possui várias ladeiras. Peppa Pig escorregou em algum lugar do caminho. Uma porquinha tão jovem tinha poucas chances de sobreviver sozinha à noite nas ruas paulistanas.

Meu pai chegou enquanto eu ainda estava atônito. “Peppa, tiu Paulu”. Meu pai, ainda sem saber da história, formou coro com a neta: “Onde está a Peppa Juju”? Explico-lhe o ocorrido e ele dá risada ao mesmo tempo que pensa em uma solução. “Cadê Péppa? Peppa! PEPPA PEPPA PEPPA”. A situação piora.

Ligo para minha irmã. “Ana, você pode descer e fazer o caminho do carro?”. Ela decide sair à caça da pequena animala mesmo de pijamas, pois sabe da importância da missão. “Peppa, tiu Paulu, Juju quer Peppa”. Meu pai está me levando para casa e eu tenho elucubrações sobre quando poderei ir novamente à Paulista comprar uma nova Peppa, ou ao menos pechinchar o solitário George pelos R$20 de diferença.

De repente, via Whatsapp, recebo uma única mensagem da minha irmã. É uma imagem. Recomendo discrição ao rolar a página, pois a cena é forte.

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A porca passa bem. Julieta melhor ainda, mesmo sem ainda reencontrar o objeto de desejo. Meu pai me deixa em casa e eu vou me deitar com a tranquilidade de saber que minha afilhada terá uma infância tão boa quanto a minha: com desenhos duvidosos, tios que mimam e bonequinhos hipinotizantes.

Pela manhã, minha mãe me conta que Julieta dormiu agarrada à porca.

Titio bobinho.

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literatura

Le Bourgeois gentilhomme sou eu mesmo

Tinha lido a peça e pela primeira vez fui assistir a ela. Quem não se enxerga um pouco no senhor Jourdain? Querer conhecer as “belas coisas do mundo”, assim como os outros daquela outra classe social.

Durante a peça, o ponto mais encantador não foi descobrir que falo em prosa desde que nasci. Incrível foi ver, durante a lição do filósofo sobre as vogais, que não apenas o sr Jourdain estava ridiculamente praticando o a-e-i-o-u: a plateia toda, sabendo ou não, também repetia cada movimento do lábio ensaiado pelo professor.

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Dizem que algo parecido acontece com o Inspetor Geral. Espero ter a oportunidade de também vê-la encenada.

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literatura

O nascimento da consciência

Hoje, li um trecho de Brodsky, na eterna tentativa de obter algo de cada nobel da literatura. Curiosamente o texto aborda uma questão da que sempre gostei: em que momento nasce a consciência em uma criança? Quando é que passamos a ser?

A definição de Brodsky pode ser poética, mas sem dúvida interessante: “a verdadeira história da sua consciência começa com sua primeira mentira“.

Ele ainda relembra a primeira mentira que contou na vida. Na União Soviética, ele precisava preencher o formulário de cadastro para a professora. Há o campo cidadania e o campo nacionalidade. Em cidadania, ele era russo, mas na nacionalidade respondeu não saber. Mentiu. Sabia que era judeu. A professora mandou voltar pra casa e perguntar aos pais. Tanta coisa ao mesmo tempo…

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Lembra-me seu conterrâneo e também vencedor do Nobel. Nabokov disse que a literatura não nasceu quando alguém contou uma história, e sim quando o menino mentiu que havia um lobo e gritou por ajuda. O cry wolf.

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literatura, religião

A definição de niilismo?

Pondé diz uma coisa, seu professor diz outra e encontramos uma terceira abordagem em Dostoiévski. Passivo, ativo, contemporâneo, trasnvaloração, nenhum valor, etc. Tenho bastante dificuldade.

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Lendo o Homem Revoltado, de Camus, encontrei algumas citações a Nietzsche que parecem se encaixar bem. Infelizmente Camus cita Nietzsche livremente, sem fazer a referência a qual aforismo de qual livro se trata.

“O niilista não é aquele que não crê em nada, mas o que não crê no que existe.”

Para mim, essa definição ajuda bastante. Outras passagens reforçam:

Se o niilismo é a incapacidade de acreditar no que existe, seu sintoma mais grave não se encontra no ateísmo, mas na incapacidade de acreditar no que existe, de ver o que se faz, de viver o que é oferecido“.

Um exemplo disso? “O cristianismo acredita lutar contra o niilismo, porque ele dá um rumo ao mundo, enquanto ele mesmo é niilista na medida em que ao impor um sentido imaginário à vida impede que se descubra seu verdadeiro sentido“. E passa a também raciocinar sobre o niilismo do socialismo.

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literatura

Orgulho e Preconceito na Quarta Extra

Quarta Extra. É com esse nome que se chama a grande promoção que o supermercado realiza toda quarta feira.

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Na semana passada, estive no Extra da Ricardo Jafet com Marcela. Aberto 24 horas. Gigantesco. Posto de gasolina em frente. Marcela não gosta muito de fazer as compras nesse dia da semana por lá: as prateleiras parecem ter sido atingidas por um grupo de figurantes do Walking Dead e sobreviventes, com alguns produtos derrubados e outros abertos. Sinal do sucesso!

Paro o carro no estacionamento, que fica embaixo do mercado, mas longe do acesso das escadas rolantes. Há poucas vagas. Pegamos um carrinho de compras e subimos.

O ambiente é bastante familiar. Há até espaço para massagens, cabeleireiro, venda de peixinhos e uma farmácia. Não posso deixar de comentar sobre a musicalidade do ambiente. Naldo e Jorge Vercillo parecem estar no repeat. Naldo toca o Whisky ou Água de Coco, Pra cima! Já Jorge Vercillo tem uma música do homem-aranha. Ponto para o Naldão.

Fico na seção das carnes, pois preciso organizar o churrasco. Com a idade, estou assumindo esse meu lado tiozão. Marcela visita, com o carrinho de compras, diversas seções onde geralmente não sei distinguir um produto do outro. Em 20 minutos estamos no caixa, pedindo o CPF na nota.

Descemos. Paramos o carro longe das escadas rolantes. Cruzamos toda a garagem até o lado oposto, quando começamos a mover as nossas compras do carrinho para o porta-malas.

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Fechado o porta-malas, chega o grande momento da Marcela: levar o carrinho de compras para o seu devido lugar. Preciso frisar que Marcela tem alguns TOCs-positivos, como todos nós. Um deles, por exemplo, é com lixo reciclável: ela pode surtar se alguém não separá-los ou dispensá-los indevidamente. O outro é com a carrinhos de compra de supermercado: é necessário levá-los até seu ninho principal, e nunca largá-los no meio do estacionamento ou nos sub-ninhos (aqueles pequenos grupos de carrinhos que acabam se amontoando pela preguiça de nós, compradores). O ninhão de carrinhos de compra está longe, bem longe, lá no acesso às escadas rolantes.

“Paulo, eu vou levar o carrinho até lá e você me pega na porta de vidro das escadas rolantes, tá?” Tá!

Dou a partida do carro e saio pelo corredor, em direção a saída. Chegando próximo das escadas rolantes, vejo um senhor mais velho, com a aparência muito humilde, de camiseta de futebol pra lá de velha. Ele carrega duas pequenas sacolas do supermercado e vai em direção a um corcel bastante judiado. Minha cabeça começa a pensar nas possibilidades: estou feliz que muitas pessoas possam ter acesso a um supermercado não tão barato quanto o Extra. Como é possível haver alguém que seja contra o acesso universal de bens que antes só a classe média privilegiada tinha? Como é possível haver alguém que seja contra a orkutização dos aeroportos? (sim, esses são os pensamentos que estavam na minha cabeça naquele momento final das compras). Sobre os aeroportos, tenho visto cada vez mais gente tirando fotos de seus primeiros vôos. É facil encontrar algum adulto que esteja viajando pela primeira vez, e é difícil que ele contenha a emoção e a adrenalina, além de querer registrar tudo no seu smartphone! Uma pena algumas pessoas se sentirem incomodadas com isso. Apenas um desses seres é muito combustível para o blog do Sakamoto!

Faço a curva em direção ao posto de gasolina, logo após a saída do supermercado. Vou desacelerando pois há uma cancela. Repentinamente vejo que algo está errado, o meu instinto-aranha-vercillo percebe um vulto em um dos retrovisores.

Sim, o possível bandido que me aborda na saída do supermercado é a própria Marcela, que vem com ar ofegante, me seguindo com passos apertados. Eu só não tomo um susto maior pois, ao mesmo tempo que preciso descobrir quem está do lado de fora, dou pela falta dela!

Aqui tudo acontece muito rápido: fico preocupado, temendo pela minha integridade física, ao perceber que praticamente esqueci a Marcela no supermercado em um intervalor de 2 minutos! E nem no Gmail eu estava! Qual seria o estado de espírito dela nesse momento? Penso tudo isso enquanto aperto o botãozinho do vidro elétrico. Eu vou me desculpar, mas ela está sorrindo e diz que “desde o lugar combinado você estava andando devagar, então eu vinha correndo atrás achando que um pouquinho mais pra frente iria parar!”. Destravo a porta do passageiro, ela entra sem entender muito bem o que eu aconteceu comigo.

Já que ela continua sorrindo, e como nenhuma mentira apropriada me dá na veneta, eu confesso: “Esqueci você!”.

Um simples LOL não basta. É UHhuauahuahuHAuHAuah. É a onomatopéia mais próxima do que aconteceu.

Ela entra no carro, contina sorrindo, e eu gargalhando. Gargalhando ao volante, daquele jeito que dói o abdomen, por grande parte da Ricardo Jafet. O downside da história é que Marcela ficou arisca a ideia de eu levar os futuros bebês no carro sem ela.

Marcela, por favor, dê risada novamente enquanto relembra dessa sua quarta-feira.

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literatura

O dilema dos gêmeos e o aborto

Minha esposa teve gêmeos. Rosana e Olívia.

Acredite, isto sempre foi um sonho. A emoção de ver as pequenas univitelinas é enorme. Idênticas. Sem mesmo uma pinta no rosto para diferenciá-las com facilidade. A maternidade Santa Gerovévia fez como pedimos: macacão roseado em Rosana, esverdeado em Olívia.

Rosana e Olívia

Consegue dizer quem é quem? Nós pensávamos que sim.

Os nomes foram escolhidos muito antes do nascimento. Rosana é a primogênita. Ela já estava mais posicionada como tal dentro do útero de minha esposa. Olívia, a mais ‘verdinha’, era o nome combinado da segunda a nascer, que veio ao mundo quatro minutos depois.

Três anos se passaram até a maternidade entrar em contato. Senhor Paulo? Depois de uma auditoria em nosso hospital, percebemos que cometemos um erro. Seus bebês receberam as pulseiras trocadas. Sim, Rosana é Olívia, e Olívia é Rosana.

Dilema dos nomes dos gêmeos

Rosana já atende pelo nome. Olívia também. O que fazer? Devo destrocar os nomes de minhas filhas? Afinal, Rosana não é a primogênita, como havíamos planejado. Para crianças com essa idade, parece-me haver apenas uma resposta: é tarde demais para realizar a destroca, além de que esse detalhe já perdeu a importância. Cada uma continua com seu ‘nome falso’, sem grandes sofrimentos.

E se a maternidade fosse mais eficaz? E se ela houvesse nos notificado prontamente, apenas uma hora após nosso contato com os bebês, ainda dentro do quarto? Destrocaria os nomes? Cada uma estava com uma cor diferente. Bastaria, a partir daquele momento, começar a chamar o bebê em rosa de Olívia, e aquele em verde de Rosana, além de trocar as pulseirinhas. Para este outro caso limítrofe, a resposta é fácil: eu realizaria a troca. A primogenitice de Rosana seria respeitada e Olívia seria a caçula, conforme o estranho desejo dos pais, sem dar nó na cabeça de nenhuma criança.

A brincadeira fica mais complicada quando avançamos mais as datas, de pouco em pouco. E se a maternidade telefonasse três dias depois? Você destrocaria os nomes dos bebês? Caso afirmativo, pense na sua resposta para o caso dela ligar apenas uma semana depois. Caso negativo, imagine a possibilidade da Santa Gervévia fazer contato ainda dentro do quarto, porém dez horas depois.

Qual é o limite para mudar sua decisão?

Deve existir um X onde você se sente confortável em dizer que, mesmo sendo contactado após X dias, você trocaria os nomes dos bebês. Depois desses X dias, você não trocaria mais. Perceba que, não importando o seu X em particular, essa é uma decisão muito estranha. Por que mudar o nome das crianças em até X dias é aceitável, e depois de X+1 dias, não é aceitável? Qual é a mágica que acontece entre esses dois instantes?

Parece até que tentamos adivinhar quando os bebês ganham consciência suficiente, ou que nós temos apego o suficiente, para que seus nomes estejam tatuados nos cérebros dos pais e/ou dos filhos. Como se esse momento fosse um instante. Mudar os nomes dos filhos pode ser uma decisão pequena. O aborto não é.

A questão do aborto

Começarei também pelos extremos.

Para muitos, a tal da alma aparece no dia da concepção. Com essa visão, não deveríamos abortar. O X da questão é 0 dias. Você só pode abortar até 0 dias depois da concepção.

Para outros, o bebê, mesmo depois do parto, ainda não tem significativos sinais de consciência. Como ele não tem um ‘eu’ bem definido, também poderia ser abortado em vida. Pode parecer um raciocínio desonesto, mas infelizmente não é. Alberto Giubilini, chefão do grupo de ética de Oxford, nos faz temer esse brave new world no artigo ‘After-birth abortion: why should the baby live?’. É um texto que indico fortemente ser lido em sua totalidade, seja você pró ou anti direito de aborto. Matar bebês não seria muito diferente de abortar aos 3 meses. Legalização do infanticídio?

Muitos defensores do direito de abortar não querem ir tão longe, obviamente. Pensando em grandes filósofos, Schwarzenegger diz que o limite são 6 dias, depois disso é anti ético. De acordo com artigo aleatório da scientific american, na vigésima quarta semana o nascituro está fisicamente preparado para a consciência. Se preferir algo mais palpável, o bebê pode se reconhecer no espelho aos dezoito meses.

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Não é uma questão fácil. Não tenho respostas, mas a pergunta é latente: decidir o que é a vida, quando é vida, e a partir de que momento esse ser possui os mesmos direitos que eu, que você.

Há diversos outros dilemas onde é difícil se posicionar. O espectro de possibilidade é muito amplo. Poucos optarão pelos limites mais radicais. Grande parte ficará no meio termo, apesar de alguma incoerência. Do batizado dos gêmeos ao aborto. Do vegetarianismo à salvação de beagles e ratos.

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literatura

Adverbialização do Adjetivo

Eu só fiz isso” versus “Eu somente fiz isso“.

Estou falando sério” versus “Estou falando seriamente“.

O trem chegou atrasado” versus “O trem chegou atrasadamente“.

O adjetivo faz, muitas vezes, o papel do advérbio, modificando o próprio verbo. Há um caso famoso na TV brasileira:

A cerveja que desce redondo“. A cerveja não deveria descer redonda? Não, pois nesse caso é uma adverbialização. A cerveja desce, mais precisamente, redondamente.

Procurei e vi que a coisa é séria. Há estudos sobre o assunto: “Gramaticalização de advérbios a partir de adjetivos: um estudo sobre os adjetivos adverbializados“, de Mariana Gonçalves Barbosa.

Língua complicada…

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